Sobre miscigenação, falta de tradição e orquídeas: a nacionalização da Arquitetura Moderna Brasileira nas revistas de arquitetura de língua alemã

p. 1-10

Capa dos anais

3º Seminário Docomomo Brasil, São Paulo, 1999

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19070617

Resumo

O período da grande repercussão da produção de arquitetura moderna brasileira não deixou de incluir as revistas de língua alemã. Entre pequenas notícias, grandes reportagens e um número da revista suíça Werk exclusivamente dedicado ao trabalho dos arquitetos brasileiros, o público da Alemanha, Áustria e Suíça teve à disposição nos anos entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a construção de Brasília uma série de informações sobre uma produção cultural que desafiou todo o tempo principalmente a idéia que os autores destes artigos tentavam esboçar de uma arquitetura contemporânea – e as suas filiações com a noção ortodoxa de arquitetura moderna – mas também os próprios esboços por eles traçados do desenrolar da história da arquitetura do século XX. Ao reconhecerem esta produção como um "outro" cultural, estes autores perpassam os seus textos com a mesma questão básica que fará Benevolo ou Giedion identificar no trabalho dos arquitetos brasileiros uma nova tendência dentro do Movimento Moderno. Algumas conclusões porém foram bastante distintas desta. Se em um primeiro momento – do imediato pós-guerra, caracterizado basicamente por uma necessidade de atualização do conhecimento sobre a produção de arquitetura mundial – a produção de arquitetura no Brasil aparece em reportagens gerais e primeiras reportagens específicas sobre projetos e edifícios construídos no Brasil como uma entre várias frentes de renovação da arquitetura àquela época, tratadas mais ou menos em igualdade com as demais, num segundo momento passa a existir uma especificação, que define limites ligados à regionalização, da produção brasileira que coincide com a ampliação dos conhecimentos sobre ela, devido à exposição "Brasilien baut", que irá percorrer algumas cidades de língua alemã entre 1953 e 1954 (e não por acaso coincidirá com o ano da divulgação da famosa crítica de Max Bill). Na revista austríaca Allgemeine Bauzeitung será até reconhecido, "apesar das formas estranhas, uma unidade de estilo". Em um terceiro momento, no caso específico das revistas em estudo muito marcado pelas reportagens sobre o edifício de Niemeyer em Berlim, mas sem deixar de acompanhar por exemplo o concurso e início de construção de Brasília ou a obra de Reidy, o tratamento dado a esta produção já tem como base a caracterização nacional-regional-cultural como elemento direcionador da percepção destas obras de arquitetura. Os três grupos de temas sugeridos no título definem justamente categorias das referências que muitas vezes foram usadas para a nacionalização desta produção: a primeira referindo-se às especificidades culturais gerais, das quais o tema das diferentes raças como componentes do povo brasileiro em todas as suas nuances aparece com determinada pregnância; a segunda referindo-se às questões específicas da produção de arte e arquitetura brasileiras no século XX, incluindo aqui a transformação das cidades brasileiras – especificamente o Rio de Janeiro e São Paulo – principalmente através dos arranha-céus, e o uso do concreto armado; e a terceira referindo-se às questões climáticas e de paisagem que justificariam por exemplo o emprego tão difundido dos pilotis. De maneira interessante na direção contrária ocorre a alemanização do arquiteto Oscar Niemeyer, graças ao seu sobrenome: muitas vezes o seu nome aparece escrito com a grafia alemã (Oskar) e algumas especulações são feitas sobre os seus antepassados. De todo jeito, ainda que com intensidades diferentes de apropriação e nacionalização, é identificada em todo o tempo estudado por parte dos ensaístas e repórteres uma série de elementos nesta arquitetura brasileira que passam a oferecer contrapontos à definição ortodoxa da arquitetura moderna. A leitura destes textos sugere que ali onde mais as soluções "tropicais" se afastam desta definição ortodoxa, mais elas recebem a rotulação de nacional. Visto por outro ângulo, quanto mais informação sobre a arquitetura brasileira chegou ao público de língua alemã, mais determinadamente foi dado um caráter local ou regional na apresentação dessa produção.

Como citar

CAMPOS, Márcio Correia. Sobre miscigenação, falta de tradição e orquídeas: a nacionalização da Arquitetura Moderna Brasileira nas revistas de arquitetura de língua alemã. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 3., 1999, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: FAU-USP, 1999. p. 1-10. ISBN 85-85205-56-3. DOI: 10.5281/zenodo.19070617.

Referências

  • CAMPOS, Márcio Correia. Objekt Nr. 14: Das Bild des Niemeyer-Hauses in Berlin und der brasilianischen Architektur in den deutschsprachigen Architekturzeitschriften der vierziger und fünfziger Jahre. 1999. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) — Faculdade de Arquitetura e Planejamento Urbano, Universidade Técnica de Viena, Viena.
  • WIGLEY, Mark. Il luogo On Site. Lotus, Milão, v. 95, p. 118-131, dez. 1997/fev. 1998.

Ficha catalográfica

3º Seminário Docomomo Brasil: anais: a permanência do moderno [recurso eletrônico]. São Carlos: EESC-USP, 1999. ISBN 85-85205-56-3