Williams – Costa: arquitetura, técnica e natureza
Resumo
A construção da arquitetura moderna supõe a conformação do seu próprio relato legitimador: a pala- vra se constitui no lugar de reconciliação, e, nesse discurso, a tecnologia se instaura como elemento fundamental de mediação entre o homem e seu entorno. A cultura arquitetônica latino-americana dos anos 30 sabe disso, e se desenvolve nas bases fundadas na década anterior, na qual congressos, concursos, revistas e instituições estabelecem a transformação disciplinar necessária para erigir o arquiteto em agente da modernização, reclamando para si um espaço específico na construção da cidade. Este trabalho se debruça sobre dois textos tardios, que tentam mais do que compreender, explicar as mudanças produzidas na arquitetura da década de trinta, colocando questões comuns, e tentando definir os termos de um debate que refere tanto à construção do local quanto a sua relação com o internacional. Se trata de uma carta dirigida pelo arquiteto argentino Amancio Willams ao seu irmão, a propósito de um projeto para este, de 1943, e do texto clássico de Lúcio Costa, Muita construção, alguma arquitetura e um milagre, 1951, publicado depois como Arquitetura Brasileira. Em ambos aparecem os tópicos debatidos pela arquitetura moderna: a relação com a história e a natureza, os estilos, a tecnologia. A referência à história serve fundamentalmente para realizar a crítica ao século XIX, aos estilos, assi- nalando esse momento como momento de ocultamento e de incompreensão das possibilidades aber- tas pela revolução industrial. Assim, a expressão da própria personalidade nacional, a afirmação da particularidade, conjuram a possibilidade da cópia. Os termos do debate entre tradição e moderniza- ção percorrem ambos os textos, intentando uma conciliação a partir da técnica. A técnica permite assim, não só determinar a forma do objeto arquitetônico, mas expressar a contra- posição entre a ordem produzida pelo homem -através da arquitetura- e a natureza que é transforma- da em paisagem. Tanto para Williams como para Costa as técnicas permitem a oposição geometria – natureza. Uma oposição que é a base da beleza: “sublimada manifestação de pureza formal e domí- nio da razão sobre a inércia da matéria” 1 A técnica não é só o meio, mas a condição intrínseca na configuração formal de um objeto que precisamente por isso, é percebido como belo. Mas os discursos apresentam uma fissura: a universalidade outorgada à técnica, à história, à nature- za, se translada às fundamentações, que deixam de lado problemáticas particulares, para configurar- se como justificativas essenciais e absolutas, no caso de Williams, ou para construir o milagre da arquitetura brasileira, no caso de Costa. Assim, a universalidade mostra o seu caráter ideológico, instalando a razão como razão instrumental, deslocando a utopia da reforma social e relegando à arquitetura ao lugar supostamente neutro outorgado pela técnica como instrumento de progresso. Lúcio Costa. Arquitetura Brasileira, Serviço de Documentação. Ministério da Educação e Saúde. Rio de Ja- neiro, 1952
Como citar
ACOSTA, Maria Martina. Williams – Costa: arquitetura, técnica e natureza. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

