Residência Rivadávia de Mendonça
Resumo
“E foi assim: ele pegou um lápis, papel e começou a desenhar...o perfil da casa. [...] Ela ficou vendo ele desenhar. Olhou, olhou...quando ele parou, disse assim: _ 'essa aqui é a sua casa!' Ela olhou e falou: _ 'Artigas, isso não é uma casa. Isso é um sofá!' O Artigas deu uma gargalhada: _ 'e não é que essa menina Elza tem razão?!'.” Neste trabalho temos o orgulho de apresentar a Residência Rivadávia de Mendonça, projeto do arquiteto Vilanova Artigas de 1944, por um viés muito especial: o da Memória. Através dos relatos de sua primeira proprietária, Isabel Munhoz Garcia, esposa do Dr. Rivadávia de Mendonça e amiga pessoal do arquiteto, conseguimos muito mais do que recuperar informações que haviam se perdido, tais como o endereço da residência, no Pacaembu, ou a cor das paredes, na pintura do Rebollo; conduzidas pela sua extraordinária memória nos foi possível resgatar um pouco da São Paulo dos anos quarenta, seus personagens, seu ritmo, seus espaços. Figuras como Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Rubem Braga e Burle Marx, além, é claro, do amigo Artigas, aparecem nítidos em seus relatos, nas suas lembranças. "Todo mundo se conhecia. São Paulo era uma cidade pequena. Olha o Mário [de Andrade]! [...] A casa era um espetáculo de amplidão, de luz. De tudo. Eu perguntei pro Artigas quem ele indicaria pra fazer a pintura da casa e ele indicou o Rebollo. O Rebollo pintou as laterais em marrom, que era pra encurtar as distâncias e a laje inclinada em azul claro. Cor do céu. [...] De um lado era um escritoriozinho; do outro, a sala de jantar. Nessa parede eu tinha um painel do Di Cavalcanti. Enorme. Ele tinha uma dívida pequena no Clube dos Artistas e falou: fica com vocês e vocês pagam a minha dívida. Era um quadro grande, pegava quase toda a parede. [...] Na frente era um gramado só. Aqui foi que o Rubem Braga me disse: _ Isabel, o Burle Marx é meu amigo. Eu falo com ele e ele vai ter o maior prazer em fazer o projeto pra vocês, de graça. O Rivadávia não aceitou. Nós íamos ter uma paisagem feita por Burle Marx! Provavelmente, o primeiro que chegasse já ia mudar também, né?”” Como se vê, essa memória não é simplesmente nostálgica, ao relembrar o passado como ‘bons tempos que não voltam mais’. A memória da franca D. Isabel é, antes de mais nada, um instrumento do presente, ativa, que percebe os acontecimentos e os interpreta à luz de sua percepção atual, com a maturidade de sua vivência. Por isso, iniciamos falando um pouco sobre a questão da memória enquanto instrumento para a preservação, seus suportes, sua caracterização e o poder da imagem como elemento ativador da memória adormecida. Na segunda parte, a memória fala por si e a casa aparece: a princípio ainda encantada, ilustrada por imagens - aquarelas - que os relatos nos provocam a fazer; em seguida, a casa é real, fotografável, mensurável, ilustrada, desta vez, pelos relatos da primeira proprietária ao constatar as mudanças que o tempo tratou de desenhar.
Como citar
GONÇALVES, Cristiane Souza. Residência Rivadávia de Mendonça. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

