A comunhão entre as artes plásticas e a moderna arquitetura religiosa brasileira

p. 1-3

Capa dos anais

4º Seminário Docomomo Brasil, Viçosa, 2001

Resumo

A leitura centrada destes dois excertos de artigos advindos do clero brasileiro, datados de meados do século XX, esclarece sobre o papel relevante da arte sacra em todos os tempos e a sua valoração no engrandecimento espiritual do homem, bem como a visão da Igreja sobre a adequação das artes à Arquitetura para que o conjunto plástico de seus templos reflita um efetivo valor artístico. Em se tratando de arte moderna no âmbito eclesiástico, a reforma pela qual vinha passando a Igreja Católica em todo o mundo após a segunda grande guerra potencializou a aceitação da linguagem moderna como representativa dos novos cânones religiosos eleitos para a modernização da Igreja, com vistas à continuidade de sua tarefa de conversão dos corações humanos a Deus. Na França, clérigos como Régamey, Cocagnac e Ledeur, capitaneados pelo ábade Père Couturier, tornaram-se grandes defensores da arte moderna frente à Comission d'Art Sacré, responsável pelos debates sobre arte e arquitetura religiosa naquele país. No Brasil, artigos assinados por clérigos como o Mons. Joaquim Nabuco (este, por muito tempo, presidente da Sociedade Brasileira de Arte Cristã), o Mons. Guilherme Schubert, o Pe. Dinarte Duarte Passos, o Pe. Damião Prentke e o D. Frei Henrique Trindade, discutiam a pertinência da linguagem artística moderna para a Igreja na representação pictórica, escultural e arquitetônica e davam conta de esclarecer os pressupostos com os quais deveriam lidar os artistas modernos para bem conjugar o espírito do tempo com os cânones litúrgicos, em postura geral positiva sobre a arte e a arquitetura modernas. No meio artístico, nomes como Léger e Bazaine tiveram suas produções sacras aceitas e adequaram sua arte a espaços religiosos. Le Corbusier é responsável pela capela de Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamp, com suas formas inovadoras e vitrais e afrescos que representam símbolos da natureza e mitologia primitiva e, no contexto brasileiro, Oscar Niemeyer construiu a Capela de São Francisco de Assis, na Pampulha, e outros templos conjugando à sua excepcional plasticidade os murais e afrescos de interpretação sacra de renomados artistas nacionais, como Cândido Portinari. As características e a adequação das artes plásticas à arquitetura moderna foi motivo de reflexão tanto para arquitetos quanto para pintores e escultores: guardada a sua passionalidade, Le Corbusier, que via a arquitetura como "a síntese das artes maiores" por representar em si a totalidade das emoções despertas por todas as artes, concordava que um trabalho artístico poderia ter comunhão total com a arquitetura desde que entrasse num diálogo genuíno com seu contexto arquitetural, num encontro excepcional de mentes envolvendo o arquiteto e outros artistas. Lúcio Costa, mentor maior da modernidade tupiniquim, escreve que para que a pretensa comunhão das artes se estabelecesse, "o importante é que a própria arquitetura seja concebida e executada com consciência plástica, vale dizer, que o arquiteto seja, ele próprio, artista", porque, na visão de Lúcio, só assim a obra de pintores e escultores poderia integrar-se à composição arquitetônica como um de seus elementos constitutivos, não sendo a arquitetura "uma espécie de background ou de cenário, construída apenas para valorizar a obra de arte 'verdadeira'", como erroneamente pensavam pintores e escultores a respeito da tal síntese. Neste contexto teórico-ideológico, o trabalho propõe demonstrar como se deu, em nível nacional, a aceitação da arte e da arquitetura modernas pelo Clero e analisar, no espaço dos nossos templos modernos, a integração (ou síntese?) das artes plásticas com a arquitetura através do exame de edifícios paradigmáticos, entre eles a Capela de São Francisco de Assis, na Pampulha e a Catedral de Brasília, apenas para ficar com duas obras do mesmo arquiteto.

Como citar

MÜLLER, Fábio. A comunhão entre as artes plásticas e a moderna arquitetura religiosa brasileira. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.

Ficha catalográfica

4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.