Os salões, a escola e as obras
Resumo
A historiografia da arquitetura moderna costuma evidenciar a renovação nas artes plásticas como um dos principais fatores que antecedem a modernização da arquitetura. Em Recife, nos anos 30, as relações diretas e o real intercâmbio entre a renovação artística concretizada pelos pintores e a modernização da arquitetura nem sempre é clara e evidente. Os personagens de nossa modernização arquitetônica nem sempre foram os mesmos que iniciaram a renovação nas artes plásticas ou pouco se relacionaram com estes. No entanto, algumas iniciativas no campo das artes plásticas tiveram a participação de arquitetos e contribuíram para a modernização do debate arquitetônico. Para avaliar o intercâmbio entre artes plásticas e arquitetura em Recife nos anos 30 e 40 estabelecemos alguns episódios que tiveram a participação de artistas e arquitetos: as exposições de artes plásticas, o ensino e as obras de arquitetura moderna. No campo das exposições fica claro o intercâmbio entre artistas e projetistas. Nos Salões de Belas-Artes ocorridos em 1929 e 1930 os projetistas Heitor Maia Filho e Abelardo Gama participaram com composições no estilo neocolonial e missão espanhola. A despeito do tradicionalismo destas iniciativas, tal como ocorreu na Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922, elas evidenciam o intercâmbio existente entre as artes plásticas e a arquitetura. Em 1930 a presença das obras da Escola de Paris em Recife evidencia o contato do meio artístico local com a vanguarda européia. Em 1933, iniciativas isoladas evidenciam a modernização do meio artístico, a exposição com decorações do gênero futurista por iniciativa de Ramires de Azevedo e José Norberto Silva (este último viria a participar do grupo de Luiz Nunes na Diretoria de Arquitetura e Construções, posteriormente, Diretoria de Arquitetura e Urbanismo) enfatiza o intercâmbio entre a renovação nas artes plásticas e as iniciativas e modernização da arquitetura. É dos Salões que surge a iniciativa para a Fundação da Escola de Belas-Artes de Pernambuco por iniciativa de Heitor Maia Filho. Embora o ensino permanecesse durante os anos 30 e 40 em moldes tradicionais, em fins dos anos 40 artistas modernos contribuem para modernizar a Escola de Belas-Artes. O pintor Lula Cardoso Ayres modifica as cadeiras de desenho, introduz o ensino das formas geométricas simples, das composições em cores primárias. São as obras de arquitetura as experiências mais relevantes do engajamento entre artes plásticas e arquitetura. As experiências da Diretoria de Arquitetura e Construções e, posteriormente, Diretoria de Arquitetura e Urbanismo de Luiz Nunes além das obras modernas pioneiras elaboradas por ex-integrantes desta Diretoria nos anos 40 evidenciam este intercâmbio. Pinturas, murais, painéis decorativos, esculturas, ladrilhos cerâmicos com motivos regionais, são algumas contribuições das artes plásticas nas obras modernas elaboradas na cidade neste período. Artistas como Hélio Feijó, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, Corbiniano Lins e outros, contribuem para a modernização da arquitetura, alguns como Hélio Feijó migram de um campo para o outro, arquiteto, pintor e artista plástico estava comprometido com a modernização das artes plásticas e da arquitetura. Devido a incipiente industrialização do Estado em meados dos anos 40 e nos anos 50 a participação destes artistas e arquitetos nos processos regionais de industrialização ainda é rara. No entanto, cresce a participação de artistas plásticos em obras de arquitetura moderna. A Biblioteca de Casa Amarela, construída em 1951, tem painel decorativo em mosaicos do artista plástico Hélio Feijó e mobiliário em madeira desenhado pelo próprio arquiteto Heitor Maia Neto; a Clínica do Dr. Arthur Moura, projeto de José Norberto Silva tem murais decorativos com temáticas regionais (trabalhadores rurais) do pintor Lula Cardoso Ayres; a Secretaria da Fazenda tem painéis decorativos do pintor Cícero Dias, além de esquadrias desenhadas pelo artista plástico Hélio Feijó e a residência de Torquato de Castro tem mural decorativo de Reynaldo Fonseca, escultura e ladrilhos cerâmicos com motivos regionais de Corbiniano Lins, estas obras evidenciam o crescente engajamento das artes plásticas na modernização da arquitetura pernambucana.
Como citar
NASLAVSKY, Guilah. Os salões, a escola e as obras. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

