A Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro
Resumo
A desilusão diante das propostas utópicas do modernismo contribuiu para que a noção de ruptura característica de seus ideais fosse perdendo consistência, enquanto o olhar dos teóricos começava a se voltar para o passado em busca das verdadeiras origens da arquitetura moderna. Esse recuar no tempo nos obriga a considerar a atuação do ensino acadêmico que, a partir do século XVIII, passou a centralizar os questionamentos teóricos sobre a arquitetura. A importância da criação da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro por artistas franceses ligados à Classe des Beaux-Arts do Institut de France, com o objetivo de modernizar o aspecto provinciano da cidade, até hoje foi muito pouco avaliada. Entretanto, a trajetória do curso de arquitetura da escola carioca — desde sua criação em 1816 até seu afastamento do âmbito das belas artes em 1945 — foi marcada por uma permanente tensão entre a rigidez conservadora e a procura de caminhos mais inovadores. A visão modernizadora de dois diretores da escola, Araújo Porto-alegre (1855-57) e Lúcio Costa (1930-31), reflete um desejo de transformação que esteve presente de forma recorrente dentro da própria escola. Araújo Porto-alegre, o primeiro brasileiro a assumir a direção da Academia em 1855, ex- aluno da École des Beaux-Arts de Paris, contrapunha seu academicismo a um sentido de modernidade e rebeldia. Sua rápida passagem pela diretoria da escola caracterizou-se pela preocupação em definir um caráter mais moderno e brasileiro para as artes e para arquitetura no país. Cônscio de que os tempos industriais reservavam grandes desafios para os futuros arquitetos Porto-alegre pressentiu a chegada de arquitetos — “gênios simplificadores, apóstolos do resumo” — capazes de responder à urgência da produção e ao inevitável esgotamento dos excessos decorativos. Isso, meio século antes da elaborada ornamentação da arquitetura eclética triunfar como símbolo da modernidade na capital da República. Em 1930, seria a vez do jovem arquiteto Lúcio Costa assumir a direção da Escola Nacional de Belas Artes com o objetivo de introduzir no currículo da antiga Academia um curso de arquitetura moderna, o que iria causar, além de muita polêmica, sua exoneração do cargo. Enquanto a experiência acadêmica fracassava, o grupo que se reuniu em torno do projeto moderno de Lúcio Costa iniciava uma trajetória de sucesso. Mesmo inspirada inicialmente no modernismo de Le Corbusier, a arquitetura brasileira desenvolveu características originais sem se deixar prender ao rigor dos dogmas modernistas. Niemeyer desviara-se da rigidez do racionalismo ortodoxo, adotando formas líricas de forte emoção plástica; Lúcio Costa não rompera com as tradições do passado, utilizando antigas referências coloniais, como gelosias e azulejos. A história da ENBA foi marcada por um convívio de ambigüidades, no qual antigo e moderno, tradicional e inovador, reacionário e progressista disputavam e dividiam o mesmo espaço, num exercício conflituoso, mas, certamente, estimulante. É injusto se continuar adjetivando o ensino de arquitetura acadêmico exclusivamente pelo seu viés conservador, ignorando as inúmeras tentativas de modernização que se iniciam a partir da antiga Academia Imperial e que — mesmo ombreando de forma desvantajosa o conservantismo institucional — contribuiriam de maneira decisiva para o amadurecimento das idéias que iriam estruturar a arquitetura moderna brasileira.
Como citar
UZEDA, Helena Cunha de. A Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

