A Escola Paulista e os bairros-jardim
Resumo
No panorama da Arquitetura Moderna Brasileira, o destaque adquirido pela produção arquitetônica localizada em São Paulo, com o desenvolvimento de uma "escola paulista" a partir da década de 1950, teve como elemento marcante uma arquitetura residencial de grande qualidade e originalidade. O importante corpo de obras residenciais unifamiliares realizado na capital paulista, que constitui parte essencial da obra de arquitetos como Artigas, Rino Levi, Oswaldo Bratke, Carlos Millan, Joaquim Guedes, Paulo Mendes da Rocha e outros, não pode ser dissociado, por sua vez, das oportunidades e especificidades derivadas de sua implantação nos "bairros-jardim". Diversos autores já estudaram o papel representado na conformação urbanística de São Paulo pelos bairros-jardim, conforme o modelo inaugurado por uma empresa loteadora formada por capitais ingleses em 1912, a Companhia City, que urbanizou grande parte do quadrante Sudoeste da cidade, e cujo exemplo foi seguido mais ou menos fielmente por outros loteamentos de classe média ou alta. Este trabalho pretende enfocar a relação entre a emergência da arquitetura residencial modernista em São Paulo, entre o final dos anos 20 e a década de 1960, e o novo padrão de ocupação residencial introduzido pela City - que adotou e impôs modernos parâmetros urbanísticos em suas realizações paulistanas. Muitos elementos dos bairros-jardim locais se inspiraram nas realizações do Garden City Movement: um novo modelo de urbanização que combatia as mazelas da cidade industrial, consubstanciado na obra de Raymond Unwin e Barry Parker - responsável pelos projetos de alguns dos bairros da City. Conforme São Paulo sofria, ao longo do século XX, os efeitos da industrialização acelerada e do crescimento urbano intensivo, esses loteamentos ganhavam importância como opção de moradia para os setores abastados: sua qualidade urbanística conformava locais privilegiados para a busca de novas soluções de vida urbana e, ao mesmo tempo, para a experimentação arquitetônica. A City consagrou a tipologia da unidade unifamiliar isolada, impondo recuos obrigatórios, uma implantação centralizada e menor taxa de ocupação dos terrenos, com ajardinamento dos espaços livres. Outras inovações foram os traçados sinuosos, as vias estreitas e os grandes lotes irregulares que permitiram a ocupação de glebas acidentadas, garantindo também a privacidade e a integração ao verde e à paisagem - características exploradas pelos arquitetos modernos, cujo arrojo estrutural, inclusive, viabilizou o aproveitamento dos terrenos mais íngremes. Iniciativa mais ousada foi ensaiada no Jardim América, onde Parker, inspirado pela visão comunitária das garden cities, criou espaços verdes comuns no miolo das quadras, quebrando a tradicional dicotomia frente-fundo que correspondia, no Brasil, à diferença entre espaços dominantes e subalternos. Mais tarde a preocupação social dos arquitetos modernos os levaria a tentar eliminar as mesmas divisões, revolucionando tanto a inserção da residência no lote como a distribuição e forma dos espaços internos. Propomos então estudar em que medida as inovações urbanísticas presentes nos bairros-jardim abriram espaço para a modernidade arquitetônica e deram oportunidade ao surgimento de algumas obras-primas da escola paulista.
Como citar
CAMPOS, Candido Malta; JUNIOR, José Geraldo Simões. A Escola Paulista e os bairros-jardim. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

