Radburn na Natal dos anos 30
Resumo
A concepção do subúrbio-jardim disseminada pelos arquitetos Clarence Stein e Henry Wright, a chamada “trama de Radburn”, é considerada por HALL (1995) uma das principais ressonâncias, na América, do ideal de cidade-jardim preconizado por Ebenézer Howard, na Inglaterra de fins do século XIX e início do século XX. Essa cidade-jardim howardiana surge em meio ao inchamento das cidades proporcionado pela intensificação do processo de industrialização, e propunha um novo modelo de organização social, econômica e territorial, que primava por baixas densidades e grandes superfícies arborizadas. O presente estudo busca identificar como a proposta de um bairro residencial para Natal, elaborado pelo Escritório Saturnino de Brito entre os anos de 1935 a 1939, incorporou as características do esquema Radburn, cuja idealização foi norteada, de acordo com Clarence Stein, por cinco pontos principais: inexistência de vias cortando os blocos habitacionais; hierarquização do traçado, separando-se a circulação dos pedestres do tráfego de veículos; aumento das áreas livres para a utilização pública, e a conseqüente redução dos jardins particulares. Evidenciava-se, assim, a ideologia da unidade de vizinhança, que, tentando resgatar as relações entre vizinhos dos antigos bairros, primava pelas grandes áreas de convivência dos moradores, denominadas “the family neighborhood” (LAMAS, 1992), onde se localizavam os equipamentos de lazer e serviços, e cujo acesso era facilitado pela não penetração dos veículos no interior da área. É possível observar nítidas semelhanças entre Radburn e o bairro residencial de Natal, que viria, dentro do ideário de Saturnino de Brito e do Escritório do qual foi fundador, prever e organizar racionalmente a expansão da cidade, considerando, principalmente, os interesses públicos, e assegurando, dessa maneira, o pleno funcionamento das redes de água e esgotos projetadas no Plano Geral de Obras. Os pontos em comum relacionavam-se tanto à forma do traçado, como ao zoneamento das atividades e à distribuição dos equipamentos. O Escritório, assim como os arquitetos norte-americanos, apontou para uma grande área central ajardinada, com a concentração dos equipamentos públicos e comunitários, possibilitando a criação de um espaço de encontro dos habitantes. Estes, por sua vez, eram privilegiados do ponto de vista da circulação, na medida em que o traçado viário adotado, ao mesmo tempo em que permitia o tráfego de veículos, desencorajava a penetração dos automóveis no interior da área, utilizando-se de avenidas perimetrais como os próprios limites do bairro. O bairro residencial, como todo o Plano Geral de Obras, concorreria para assegurar o crescimento ordenado da cidade, sem que os interesses particulares sobrepusessem o ideal de uma Natal salubre e ordenada. Apesar de não formalizado como lei, o projeto aponta para a configuração de uma realidade local onde as intenções das elites, que se concretizavam principalmente por meio de operações urbanísticas, davam-se sem o correspondente desenvolvimento econômico e concentração populacional. Observa-se, dessa forma, uma idéia de modernização antes que ela se fizesse necessária.
Como citar
DANTAS, Ana Caroline; FERREIRA, Angela Lúcia de Araújo; BARACHO EDUARDO, Anna Rachel. Radburn na Natal dos anos 30. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

