As propostas modernas ligadas à habitação de interesse social
Resumo
Este trabalho pretende discutir a questão da conformação de uma cultura de projeto no Brasil, voltada à habitação social, tendo como referência inicial as propostas modernas de arquitetura e de cidade que tiveram espaço essencialmente nas décadas de 40 e 50. A habitação coletiva tem sido caracterizada, em nosso país, por uma história de descontinuidade e de perdas significativas no que se refere ao pensamento projetual. As propostas das décadas de 40 e 50 compunham a discussão apresentada pelas revistas Habitat, Acrópole, Brasil- Arquitetura Contemporânea, Arquitetura e Arquitetura e Engenharia. Neste período foram apresentados os primeiros planos para o Conjunto de Pedregulho e as alterações propostas; foram destacados os cuidados com a travessia de pedestres no Conjunto Marquês de São Vicente (Gávea); apresentados os croquis de Eduardo Kneese de Mello demonstrando os caminhos cobertos que as crianças percorreriam na ida para a escola; ressaltada a defesa calorosa da habitação coletiva, realizada por Attílio Corrêa Lima propondo o bloco ao invés da habitação unifamiliar; indicado o cuidado com a paisagem e com o lugar apontado no Conjunto de Vila Isabel – “moldura ao majestoso parque”. Foi o momento de caracterização dos territórios habitacionais como territórios de excelência, por terem mais qualidade – no que se refere a programa, equipamentos coletivos, implantação, soluções plásticas e construtivas – que a cidade existente que os “recebe”. O período que se sucedeu a essas discussões vigorosas, e que apresentaram resultados espaciais de reconhecida qualidade arquitetônica, foi breve e pôde ser claramente identificado: voltou- se à iminência do processo de urbanização crescente das cidades brasileiras com a perspectiva de redirecionar a discussão, conduzindo-a ao tema da acessibilidade à terra urbana e, portanto, ao tema da democratização da condição de urbanidade. Interrompida, essa questão, só será retomada sob novos parâmetros muitos anos depois. No que se refere à arquitetura, as perdas foram sensíveis. As possibilidades colocadas ao homem, as perspectivas de qualificação do território para a vida cotidiana que constituíram o conteúdo das propostas espaciais do IAPI Cidade Jardim (1947) – ruas de pedestres cobertas e cuidados com a travessia das crianças – e do IAPB Santa Cruz (anos 50) – com a possibilidade de percursos a pé por toda a área, independentes e intercalados com as vias – não mais se deram com esse significado. A cidade pensada enquanto espaço da vida coletiva, transformou-se em suporte da realização de alguns setores produtivos ligados à indústria da construção (Conjuntos Habitacionais da COHAB – Itaquera I –1977/82, Carapicuíba - 1968/82): destituídos da idéia da vivência urbana, das escalas do homem, os territórios habitacionais perdem as proporções nessas versões do urbanismo racionalista. O trabalho propõe-se, dessa forma, a identificar através dos espaços, as formulações de vida coletiva destacando-se como elas se materializaram pelo programa, pela arquitetura, pelo desenho urbano e através da relação com a cidade, utilizando-se, para isso, alguns dos projetos emblemáticos do período anterior à política do Sistema Financeiro da Habitação/ Banco Nacional da Habitação, instituída a partir de 1964.
Como citar
RUBANO, Lizete Maria. As propostas modernas ligadas à habitação de interesse social. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

