Mil e uma utilidades: a fábrica da Bombril em Pernambuco
Resumo
O edifício da fábrica da Bombril (1981) em Paratibe-PE é um exemplar que data da segunda fase do processo de industrialização nacional, marcado por uma expansão periférica de distrito industriais, prosseguindo, no caso, a expansão da região metropolitana do Recife. Período da "última fronteira modernista, do brutalismo" (FUÃO) que no Brasil adquire contornos próprios. Neste texto, levantaremos alguns aspectos destes contornos, avaliando inclusive, um depoimento recente do autor (21.07.2001) deste projeto, arquiteto Acácio Gil Borsoi, uma das principais figuras da arquitetura moderna em Pernambuco. Assim: 1. Num primeiro momento, será discutido o conceito do edifício fabril como "um edifício que vai sofrer muito, dinâmico", essencial para a concepção plástica do projeto, que visa abrigar áreas de máquinas e escritórios, devendo ser um espaço versátil, sujeito à transformações, preocupação que aparece em outros projetos industriais do arquiteto. 2. Em seguida passamos à questão da adequação climática do projeto, galgada na base de sua concepção formal: diferentemente dos tradicionais galpões fabris com shed. Não há um volume fechado, mas uma grande treliça espacial solta da construção abaixo, formando um vazio entre os dois elementos que permite a livre circulação dos ventos. A treliça além de permitir grandes vãos adequados ao funcionamento industrial, é um abrigo e uma sombra; enquanto que o volume edificado abaixo é tratado como invólucro, fechado de modo ritmado por um reduzido número de elementos construtivos. 3. Em terceiro lugar, analisamos a adequação à tecnologia construtiva local (disponibilidade de recursos materiais e humanos). O processo construtivo da fábrica foi planejado em termos de tecnologia do tipo "feijão com arroz". Excetuando-se a montagem da treliça metálica, a construção consistia basicamente em colunas pré-moldadas a cada 1,25m, e elementos modulares que atuavam como um jogo de armar, painéis que tinham a função de ventilar, vedar ou iluminar. As colunas, precisavam ser içadas, mas os demais elementos foram pensados de modo que se pudesse montar com dois ou três homens. O projeto arquitetônico foi encarado por Borsói como um meio para se atingir o objetivo final, que foi a funcionalidade e a economia da construção, "o projeto não é o ato final do arquiteto". 4. Finalmente, enfocaremos a estética resultante dos aspectos acima analisados, a qual não implicou em rigidez formal, pois a composição pôde ser regida pelo ritmo das colunas, mas a composição entre os elementos de vedação, iluminação e ventilação era livre, abstrata, vedando-se quando necessário nos depósitos, ventilando-se na área das máquinas e iluminando-se nos escritórios. A estética final do edifício, com seus dois corpos horizontais independentes, a clareza estrutural e o uso do beton bruit, conferem à fábrica aparência brutalista, fazendo dela um importante exemplar arquitetônico, imbuído da realidade do processo nacional caboclo de industrialização.
Como citar
AMARAL, Izabel Fraga do. Mil e uma utilidades: a fábrica da Bombril em Pernambuco. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

