Rodrigo Lefèvre, arquitetura, técnica e historiografia

p. 1-2

Capa dos anais

4º Seminário Docomomo Brasil, Viçosa, 2001

Resumo

A historiografia corrente da arquitetura moderna brasileira, ao estabelecer uma leitura e uma interpretação hegemônica da própria arquitetura aqui produzida, tornou, via de regra, a história da arquitetura moderna brasileira um concurso sintético e harmonioso de personagens trabalhando em prol da modernização do campo da construção, articulado com o desenvolvimento pleno do país. Trata-se de uma historiografia comprometida com o projeto de construção da nação, com o qual o modernismo brasileiro esteve vinculado desde a sua origem e que, em particular, as teses desenvolvimentistas na década de 1950 e na primeira dos anos 1960, emprestaram uma dimensão realista até então desconhecida. Neste sentido não é, como não poderia deixar de ser, uma historiografia isenta de objetivos. Os valores que enfatiza, são estruturados como pontos, cuja matriz mais apropriada é a de um programa político: as edificações devem, pela forma, exprimir a condição e singularidade nacionais; a obra arquitetônica deve projetar para frente os limites da técnica construtiva, o que significava experimentar ou propor materiais novos e formas de industrialização dos componentes construtivos ou do processo de construção, marcando o compromisso com o desenvolvimento do país. Ter e trabalhar valores, significa trazer à luz da divulgação e da correção de propósitos determinados projetos, construções e arquitetos e secundarizar ou acinzentar outras obras e arquitetos, inscrevendo na história de forma assimétrica projetos, edificações e autores. Pelas ligações da historiografia com o projeto nacional-desenvolvimentista, o significado de um questionamento e no limite um rompimento com os pontos “do programa político” da historiografia, tendia a saturar as fronteiras específicas da arquitetura, porque, também, tendia a colocar em questão o programa do projeto desenvolvimentista. Assim, a historiografia tratou de forma problemática arquitetos politicamente engajados que de forma consciente negavam o projeto desenvolvimentista e apresentavam alternativas à industrialização da construção. Estas questões parecem estar presentes no caso da atuação profissional, teórica e, também, política do arquiteto Rodrigo Brotero Lefèvre (e de seus companheiros de idéias e projetos Sérgio Ferro e Flávio Império). As suas propostas levaram-nos durante os anos 1960 a criticarem os valores e os pontos do programa da historiografia, a propriedade dos mesmos para o contexto nacional, propondo outras formas de racionalização da construção e de organização do trabalho no canteiro de obras, repensando a dualidade arcaico versus moderno, o que em parte significava romper com o programa do projeto de desenvolvimento nacional. Ou, pelo menos, assim foi interpretado num período onde as posições intelectuais eram tingidas pelos tons da urgência que as ações políticas pareciam solicitar e, no mesmo entendimento, a unidade política da intelectualidade era confundida com unicidade artística e, no caso, arquitetônica.

Como citar

BUZZAR, Miguel Antônio. Rodrigo Lefèvre, arquitetura, técnica e historiografia. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.

Ficha catalográfica

4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.