Salvador e o moderno não-industrial
Resumo
O trabalho pretende analisar a partir do estudo de quatro edificações modernas representativas para a cidade de Salvador – o Elevador Lacerda, o Instituto do Cacau, o Edifício Caramuru e a Sede dos Correios e Telégrafos, todas na região do Comércio – os limites conceituais da pressuposição de um processo regional de industrialização para a realização material da Arquitetura Moderna numa condição de periferia. Tal pressuposição é orientadora das argumentações clássicas da construção historiográfica do Movimento Moderno – Pevsner, Giedion, Benevolo, Frampton e, em menor intensidade, Hitchcock – e toma como outro referencial fundamental a experiência histórica da Europa. Não somente do ponto de vista estritamente materialista, esta idéia perpassa principalmente a argumentação de que a arquitetura moderna corresponde a uma resposta artística ao Zeitgeist da Modernidade. Porém, ela ainda se sustenta a partir de uma experiência de Moderno, como a brasileira, que com seus maneirismos estabeleceu a crise do próprio Movimento Moderno, ou melhor, da compreensão ortodoxa deste movimento? Salvador, na sua condição de periferia da periferia no processo industrial brasileiro entre os anos de 1890 e 1950, é o cenário para a construção de uma modernidade arquitetônica capaz de questionar esta fundamental assertiva para a estruturação da idéia de Movimento Moderno presente na chamada de trabalhos para este seminário em frases como “a Revolução Industrial está na base do desenvolvimento do Movimento Moderno”, “Processos Regionais de Industrialização”, “novas práticas urbanísticas ou o desenho urbano moderno (...) a partir do processo de industrialização que se instalou em várias cidades brasileiras” ou “a industrialização brasileira e as nova técnicas construtivas atingiram os processos construtivos de forma irreversível...”. A análise dos programas arquitetônicos dos quatro edifícios acima citados combinada com as idéias de modernização que redesenharam a cidade numa época imediatamente anterior à sua construção, indica muito menos uma conexão direta com qualquer idéia de industrialização do que com a idéia geral de serviços urbanos e acima de tudo com a celebração da conexão. O Moderno como a chave que conectaria a cidade a ouras cidades e outros espaços, a outras potencialidades de comunicação e economia, a outros mundos também futuros, ou seja, previsão e mesmo anunciação, enfim, um Moderno mais cultural que material. Exatamente a celebração cultural de conexões e, por isso, virtualidade – ou seja, exatamente a ausência da referência da industrialização, ou o Moderno como nostalgia do Moderno – contida nestes edifícios pode nos orientar para o esclarecimento de fatos históricos ainda encarados como “paradoxais” e para um traçado um tanto diferente de caminhos da história da arquitetura moderna no Brasil.
Como citar
CAMPOS, Márcio Correia. Salvador e o moderno não-industrial. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

