Carlos Lack, um pioneiro da moderna arquitetura no interior de São Paulo

p. 1-3

Capa dos anais

4º Seminário Docomomo Brasil, Viçosa, 2001

Resumo

O objetivo deste trabalho é analisar as concepções e inovações arquitetônicas e tecnológicas propiciadas por três obras modernistas realizadas pelo arquiteto Carlos Lack em Franca, no período de 1951 a 1955. As etapas desenvolvidas foram: 1. Localização dos projetos elaborados por Lack em Franca; 2. Entrevista com o eng. Maurício França, que foi sócio de Lack; 3. Levantamento biográfico de Lack; 4. Análise dos impactos das obras realizadas por Lack na arquitetura da cidade de Franca. Os produtos obtidos foram: 1. Digitalização dos desenhos dos projetos originais de Lack executados em Franca; 2. Elaboração de resumo biográfico do arquiteto; 3. Estudo dos impactos decorrentes da realização das obras de Lack na paisagem urbana de Franca. A cidade de Franca está situada no extremo nordeste do estado de São Paulo, a 400 quilômetros da capital, possuindo hoje 267 mil habitantes e uma economia de predominância coureiro-calçadista. A cidade polariza os pequenos burgos do entorno, num raio de influência de aproximadamente 60 km, e seu parque industrial, desde os anos 50, exerce forte atração migratória. Sua economia caracterizada por esta produção industrial coureiro-calçadista intensificou-se no imediato pós-guerra e na década de 1950. Até então a cidade, embora possuísse desde os anos 20, experiências industriais maquinizadas em curtumes e na fabricação de calçados, ainda tinha sua economia voltada principalmente para o setor agrícola, notadamente a produção de café e leite. A substituição da cidade imperial, de taipa, pela cidade republicana em tijolos e outros materiais como o vidro e o cimento trazidos pela estrada de ferro que chegou no final do século XIX, deu-se nos primeiros decênios do século XX principalmente com a participação de construtores italianos, como Schirato, Cariolato, Tasso, Tellini e tantos outros. É no ano de 1951 que se ergue, na esquina das ruas do Comércio e Marechal Deodoro, no coração da cidade que era a praça Barão da Franca, o primeiro edifício com todas as características defendidas pelos modernistas, um prédio comercial e de escritórios: ali estão a estrutura independente da alvenaria, os brises voltados para a fachada oeste, as linhas retas e a ausência de adereços decorativos tão caras aos construtores italianos, os pilotis, o uso intensivo do concreto armado, os caixilhos envidraçados seqüencialmente, em grandes panos. O inovador projeto arquitetônico para a cidade foi elaborado de fato por um estudante de arquitetura da Escola Politécnica de São Paulo, o boliviano Carlos Gonzalez Lack. A oportunidade de realizar e construir o projeto de Lack, pelo empresário francano Francisco Barbosa, se deu por um fortuito: Lack morava numa "república" de estudantes em São Paulo, com dois estudantes de engenharia civil de Franca, os irmãos Maurício Costa França e Paulo Vieira França. A associação de Lack com Costa França resultou na constituição de uma empresa de engenharia, a "França & Gonzalez Arquitetura e Engenharia", que durou de 1952 a 1955. Nestes três curtos anos, a associação dos dois profissionais resultou, para a pacata cidade do interior, na realização de três obras modernistas seminais: o já citado prédio comercial, a sede do clube Associação dos Empregados no Comércio e uma grande fábrica de calçados, a Samello, cuja importância histórica, arquitetônica e econômica, são fundamentais para Franca. O impacto da fábrica, com quase 5 mil metros quadrados, vai privilegiar uma visão do processo de produção industrial taylorista, da chamada "organização científica do trabalho". O projeto de Lack e Maurício obedeceu estritamente o rigoroso "lay-out" fornecido pela United Shoes, empresa americana que forneceria todo o maquinário da indústria. Segundo o proprietário da Samello, o empresário Wilson de Mello, o projeto "visava a racionalização do trabalho e sua melhor organização". A concepção arquitetônica incorporou os preceitos racionalistas da arquitetura modernista daquele período ao projeto, como o pilotis, o brise-soleil, os grandes vãos livres internos, tornando-a adequada à implantação dos princípios da gerência técnico-científica, orientada para um novo tipo de trabalhador que se submetesse às exigências da nova disciplina fabril necessária a um novo ritmo de trabalho, com maior produtividade. O novo tipo de planta fabril que surge em Franca, a partir da obra da Samello, incorporou processos de produção industrial novos e permitiu um salto de produtividade, como o advento da esteira e outros métodos de produção, ampliando o desenvolvimento do parque industrial da cidade, que se tornou a principal produtora de calçados masculinos do Brasil. Lack retornou à Bolívia provavelmente em 1955, onde desenvolveu intenso trabalho na região de Santa Cruz de la Sierra, vindo a falecer em 1992.

Como citar

FERREIRA, Mauro. Carlos Lack, um pioneiro da moderna arquitetura no interior de São Paulo. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-3.

Ficha catalográfica

4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.