Modernidade invisível: o racionalismo sem forma da Companhia Construtora de Santos
Resumo
A Companhia Construtora de Santos, empresa criada por um grupo liderado pelo engenheiro Roberto Cochrane Simonsen (1889-1948) em 1912, foi contratada pelo Ministério da Guerra e 1921 para a construção de quartéis em vários quadrantes do Brasil, totalizando 53 edifícios em 36 cidades (algumas delas em regiões de incipiente urbanização), num prazo estipulado para dois anos. Boa parte dessas obras estava entregue em 1923 e 1924 e as últimas unidades concluídas em 1925. Esse conjunto de edificações arregimentou um formidável contingente de 15 000 operários, 52 engenheiros e 270 auxiliares de escritório num volume de área construída e material transportado ou produzido no local sem precedentes para uma empreitada desenvolvida por apenas um executor. Este grande empreendimento só foi possível nessa extensão geográfica e num reduzido cronograma pelos procedimentos racionalistas de construção implementados no planejamento da obra, descritos pelo presidente da empresa num presumido esclarecimento à opinião pública sobre a eficiência da sua empreiteira. Feito caracterizável como uma gestão temerária na construção civil, considerando sua realização na terceira década do século 20 num país de incipiente domínio tecnológico da construção. A normalização de processos administrativos, a revisão e adequação dos projetos arquitetônicos, a racionalização de canteiros e adaptação de sistemas construtivos às peculiaridades locais foram procedimentos derivados da afinidade de Simonsen com as mais recentes referências racionalizantes da época, como os princípios tayloristas, dos quais Simonsen foi o introdutor no Brasil com o livro O Trabalho Moderno, de 1919. Mas mais do que um construtor atento às inovações técnicas e tecnológicas, Simonsen foi o grande ideólogo da industrialização no Brasil na primeira metade do século passado, tendo sido um dos fundadores da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Tratava-se de um empresário esclarecido: admirador do Deutscher Werkbund, em 1922 a Companhia Construtora de Santos inaugurou o Cassino e Teatro Parque Balneário de Santos, uma obra com filiação formal à linguagem de arquitetos do movimento alemão, como Peter Behrens; Simonsen era um dos onze brasileiros assinantes da revista L'Esprit Nouveau de Le Corbusier e Amédée Ozenfant em 1922; entre os arquitetos que passaram pelo quadro técnico da Companhia Construtora de Santos estavam Jayme da Silva Telles, Rino Levi e Gregori Warchavchik. Não é destituído de fundamento associar o discurso de uma "cientificidade" na construção do arquiteto russo em seus manifestos em prol da arquitetura moderna no Brasil à assimilação dos princípios implantados pela construtora santista. Objetivo da presente comunicação é chamar a atenção para uma faceta da modernidade brasileira destituída de forma arquitetônica visível, mas imbuída de princípios presentes nos primórdios do movimento moderno da arquitetura.
Como citar
SEGAWA, Hugo. Modernidade invisível: o racionalismo sem forma da Companhia Construtora de Santos. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.

