Flexibilidade espacial: do princípio ao mito

p. 1-2

Capa dos anais

4º Seminário Docomomo Brasil, Viçosa, 2001

Resumo

O espaço da moradia do homem vem mudando ao longo do tempo, adaptando-se permanentemente a novos requerimentos, sejam eles de natureza social, tecnológica, econômica ou mesmo política. Mudanças na estrutura de organização social, nos códigos de comportamento, nas diversas formas de composição familiar, da mesma forma como a introdução de equipamentos domésticos, do mais tosco fogão à carvão até o mais sofisticado modelo de forno micro-ondas, estão espelhados na forma de organização das nossas moradias. Estão presentes na forma como visitantes são introduzidos e recebidos, como as atividades domésticas são distribuídas no interior e no exterior da casa e, principalmente, na forma como estão previstos os diversos tipos de interação entre os componentes da unidade familiar, sejam eles consangüíneos ou não. Este artigo apresenta um estudo sobre as transformações ocorridas nas moradias recifenses, tendo em vista as diversas alterações ocorridas na sociedade recifense no último século, principalmente com o processo de modernização do estado e da divulgação das concepções arquitetônicas modernistas. O estudo se fundamenta em uma análise diacrônica de um conjunto de residências construídas e projetadas na cidade entre os séculos XIX e XX. Sua preocupação está em identificar não apenas as mudanças mais evidentes, ou mais aparentes, com a modernização das casas do Recife, mas principalmente em perceber os padrões de estabilidade e continuidade na sua estrutura organizacional. O estudo procura demonstrar que as transformações ocorridas no espaço doméstico do Recife, que de resto pode ser entendido como exemplo de um fenômeno mais universal, ocorreram no sentido de transformar estruturas espaciais diacronicamente adaptáveis em sistemas sincronicamente orientados. Ou seja, procura-se demonstrar que as residências pré-modernas, estilisticamente identificadas por suas expressões vernáculas coloniais e ecléticas, são constituídas por planos flexíveis, manifestações primárias de requerimentos de controle social, onde funções e usuários podem migrar de uma célula para outra de acordo com a conveniência, enquanto que as residências modernas expressam, de forma mais clara, prescrições compositivas de natureza funcional. As casas pré-modernas impõem restrições de comportamento (leis sociais) no uso de um plano flexível, enquanto que as casas modernas apresentam, no seu próprio leiaute, as restrições ao uso dos espaços. Desta forma, as casas modernas transformam estruturas habitacionais adaptáveis em sistemas mais rígidos. De fato, parece que a tão propagada flexibilidade espacial não passa de mais um grande mito moderno.

Como citar

AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Flexibilidade espacial: do princípio ao mito. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2001, Viçosa. Anais [...]. Viçosa: UFV, 2001. p. 1-2.

Ficha catalográfica

4º Seminário Docomomo Brasil: anais: a Arquitetura moderna brasileira e os processos regionais de industrialização [recurso eletrônico] / organização: Maria Marta Camisassa. Viçosa: UFV, 2001.