A obra de Athos Bulcão: ponto alto da vertente construtiva

p. 1-11

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Brasil, Rio de Janeiro, 2009

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19072819

Resumo

Considerando-se que a obra de Athos Bulcão, nomeadamente seus murais, relevos e elementos arquitetônicos, foi a que melhor realizou o objetivo dos nossos artistas construtivos de se fundir à vida, no que isto se refere as “grandes possibilidades de desenvolvimento prático” entrevistas por Waldemar Cordeiro, abertas a partir da arrancada do nosso desenvolvimentismo, é incompreensível que a maioria das muitas pesquisas sobre esse importante capítulo da nossa história da arte, coloque-a olimpicamente de lado. A intenção deste trabalho é apresentar as razões dessa omissão bem como demonstrar a singularidade da contribuição deste artista para a fertilização do binômio arte-arquitetura. Aos olhos de historiadores da arte que tem por lastro teórico a modernidade na acepção formalista consagrada pelo crítico norte-americano Clement Greenberg, a dificuldade na assimilação da obra de Bulcão decorre dela não se encaixar dentro das categorias canônicas das linguagens artísticas: não é exatamente pintura, tampouco escultura ou arquitetura. A tendência dessa vertente teórica é reunir seus murais e intervenções em espaços arquitetônicos na rubrica das artes aplicadas ou mesmo como uma modalidade de cenografia. E com essa compreensão ela se junta a alguns mestres modernos, a começar por Le Corbusier que, em Rumo à unidade, texto de 1944, conclamou seus colegas à reconstrução da França tendo como princípio a SÍNTESE DAS ARTES MAIORES – ARQUITETURA, PINTURA, ESCULTURA, revelando de saída sua ressalva as artes menores ou aplicadas e à decoração. Esse ponto de vista restritivo, como se demonstrará, reverbera em A crise da arte contemporânea, texto produzido por Lucio Costa para o Congresso Internacional dos Artistas, realizado em Veneza em 1952. Pela proximidade com a pintura, a qualidade da geometria estrita e despojada de grande parte dos relevos e murais de Athos Bulcão lembra-nos de imediato as telas de autoria de alguns de nossos melhores artistas de linha construtiva, como o Waldemar Cordeiro da série Idéias visíveis, Hélio Oiticica dos Metaesquemas, e os prolíferos e rigorosos estudos discutindo as relações entre linha, plano, cor e estrutura de Lothar Charoux, Hermelindo Fiaminghi, Hercules Barsotti, Mauricio Nogueira Lima, entre tantos outros. Mas só isso não distinguiria a obra de Bulcão, até porque ela os sucedeu no tempo. Há que se incluir como prova da originalidade de sua contribuição a maneira como ele, em seus murais, pensava a expansão de uma série formal; como, a partir de algumas diretrizes dadas aos operários responsáveis pelo assentamento dos azulejos, Bulcão deixava que o trabalho acontecesse em consórcio com o acaso. Um procedimento que o aproximava, embora antecipando, à estratégia dos wall drawings de seu colega norte-americano, o artista conceitual Sol Le Witt. Feito esse comentário, pode-se provisoriamente concluir que, seja pelo arcabouço intelectual de seu trabalho como também pela extensão de sua obra pública, a ausência de estudos sobre esse artista é uma situação provisória. Reduzir resumo para no máximo 300 palavras.

Palavras-chave

Como citar

FARIAS, Agnaldo. A obra de Athos Bulcão: ponto alto da vertente construtiva. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-11. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19072819.

Referências

  • CORBUSIER, Le. A arquitetura e as Belas-Artes, In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro: ISPHAN, 1984, no. 19.
  • COSTA, Lucio. A crise da arte contemporânea, In: Arquitetura Contemporânea (revista bimensal). Rio de Janeiro, agosto-setembro 1953.
  • LÉGER, Fernand. Cor no mundo, In: Funções da pintura. São Paulo: Nobel, 1989.
  • LÉGER, Fernand. . A arquitetura moderna e a cor ou A criação de um novo espaço vital, In: Funções da pintura. São Paulo: Nobel, 1989.
  • LE WITT, Sol. Paragraphs on Conceptual Art, In: Sol Le Witt – Critical Texts. Rome:Inonia, 1994.
  • OCKMAN, Joan. A plastic epic: the synthesis of the art discourse in France in the midtwentieth century, In: Eeva-Liisa Pelkonen e Esa Laaksonen (editors) – Architecture + Art – New Visions, New Estrategies. Helsink: Alvar Aalto Academy, 2007.
  • Sol Le Wit, Paragraphs on Conceptual Art, In: Sol Le Witt – Critical Texts. Rome: Inonia, 1994, p. 78.

Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4