Arquitetura em revista: o moderno e a tradição em dois periódicos representativos dos campos acadêmico e profissional da arquitetura e do urbanismo
Resumo
Trata-se de uma contribuição para o entendimento da disseminação das idéias modernas na arquitetura e no urbanismo, entre os anos de 1930 e 1945, através da leitura de dois periódicos representativos dos campos acadêmico e profissional no Rio de Janeiro, as Revista de Arquitetura, da Escola Nacional de Belas Artes, e a Revista Arquitetura e Urbanismo, do Instituto de Arquitetos do Brasil. Para uma maior compreensão dos conteúdos encontrados, buscaremos dialogar com autores e textos sobre os processos de modernização no século XX. Stevens (2003) nos apresenta as particularidades dos campos. O da arquitetura seria mais amplo do que o da disciplina, cujos membros desempenhariam um papel crítico e pedagógico. Disciplina e profissão, no entanto, estariam parcialmente superpostas, pois a disciplina da arquitetura teria como função central fornecer os instrumentos intelectuais para a valorização da arquitetura por meio de discursos, os quais constituem o seu principal capital simbólico. Durante nossa pesquisa, observamos que a participação de Lucio Costa como diretor do curso de arquitetura, por um breve período, marcou significativamente a cena com a presença dos ideais modernos na formação arquitetônica, mas os embates ou “guerras culturais” (WILLIAMS, 2001), entre tradição e modernidade, permaneceram em efervescente debate, que extrapolou os muros da ENBA. Consideramos que a produção do conceito de arquitetura moderna no Brasil e sua assimilação passaram por variadas leituras, concepções, e representações, e ainda conviveram com a permanência de uma tradição. Isso implicou no que Giddes (1991) chama de inércia de hábito, gerando um longo processo de apropriação e de recusa dos códigos modernos, dentro de uma abordagem que vê a modernidade de uma forma contraditória, ocasionando ora aproximações ora distanciamentos entre os dois termos. Entretanto, na colisão entre esses pensamentos, surgiram noções que ficaram na periferia, entre as linhas da disputa e que estão muito próximas da discussão contemporânea da teoria arquitetônica, mas que, no entanto, permaneceram à margem por longo tempo do discurso oficial. Essas contribuições em muito tocam o que foi explicitado em momento posterior internacionalmente, na intitulada revisão critica do movimento moderno, empreendida pela chamada terceira geração (DREW, 1973), instituindo-se uma nova concepção em relação à produção da arquitetura fora dos paises centrais, e que Frampton (1981) vai designar como regionalismo crítico. Assim, as revistas, como lugar de afirmação de idéias e da disputa de posições, expressaram essa contenta com a explicitação de temáticas recorrentes. Entre essas, se encontrava a contraposição do lugar ao internacional, a discussão sobre o meio físico e a arquitetura, a monumentalidade e a arquitetura a ser produzida pelo Estado, questões ainda presentes no debate teórico e crítico. Esses periódicos nos dão ainda um retrato dos interesses da profissão, tanto na academia quanto no exercício da atividade, em resposta aos câmbios tecnológicos, valores e hábitos em transformação.
Palavras-chave
Como citar
AMORA, Ana Maria Gadelha Albano. Arquitetura em revista: o moderno e a tradição em dois periódicos representativos dos campos acadêmico e profissional da arquitetura e do urbanismo. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-18. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19072873.
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

