Da integração à autonomia: arte, arquitetura e cultura no Brasil (1950-1980)
Resumo
O objetivo desta comunicação é refletir sobre o tema proposto para este DOCOMOMO – a colaboração interdisciplinar entre artes e arquitetura – através da análise de quatro diferentes concepções e suas respectivas estratégias, que transformam os seus sentidos culturais e sociais entre 1950 e 1980. A primeira é constituída pela difusão do moderno através da integração entre artes plásticas e arquitetura, a qual cumpre importante papel na interpretação brasileira dos princípios da Nova Monumentalidade. A inserção da pintura e da escultura controlada pela arquitetura, nos termos propostos por Corbusier, combina-se com a forma arquitetônica, caracterizada por figuras de forte apelo simbólico concebidas por Niemeyer. Suas figuras antropomórficas ou derivadas de interpretações da paisagem distorciam as formas construtivas tradicionais para expressar as potencialidades do concreto armado. Sua força visual resultou em grande receptividade de massa, conferindo-lhes o papel protagonista na representação da identidade nacional, que caberia, originalmente, às artes plásticas inseridas na arquitetura. A segunda posição decorre da industrialização incrementada na década de 1950, quando a concepção da difusão do moderno através da produção industrial estimulou a criação dos primeiros cursos de desenho industrial (IAC-MASP, 1951, DI FAU-USP, 1962, ESDI RJ, 1963). Também a Arte Concreta inseriu-se nesse processo, configurando-se como uma versão moderna das artes aplicadas. O fracasso do curso de Desenho Industrial no IAC MASP (aberto em 1951 e extinto em 1953) contrasta com o sucesso do curso de Propaganda, que se tornou a Escola Superior de Propaganda e Marketing, demonstrando os limites de uma industrialização baseada na produção local de bens concebidos nas matrizes das empresas multinacionais. Uma terceira posição surge no início da década de 1960, quando se revelam os limites da situação de dependência econômica brasileira e passam a ser exploradas alternativas sintonizadas com as teses terceiro-mundistas do período. Nas obras de Lina Bo Bardi a partir de Salvador e do Grupo Arquitetura Nova (Ferro, Império e Lefevre), a concepção de integração ou síntese das artes é substituída por estratégias de ação cultural ampla, abrangendo arquitetura, design, gráfica, cenografia, etc. Contrastando com a preponderância da arquitetura, ainda presente na posição anterior, o quarto movimento ocorre ao longo das décadas de 1960 e 1970, com a evolução das artes plásticas no Brasil a partir do Neoconcretismo. Torna-se forte a idéia de independência das artes em relação à sua instrumentação por outros projetos políticos e culturais. Artistas que vão de Helio Oiticica a Cildo Meirelles buscaram sua inserção diretamente na sociedade, sem mediações da arquitetura e da indústria. O forte viés crítico e a recusa a um papel subalterno questionaram tanto a integração das artes através da arquitetura, quanto a sua aplicação no Desenho Industrial. Frente a essas transformações, a integração da arquitetura com as artes plásticas perde a contribuição dos novos artistas de vanguarda, resumindo-se aos antigos colaboradores. Ao longo dessas três décadas, arte e arquitetura se propõe a assumir papéis diversos na cultura brasileira, que além das diferenças profundas entre si, mostram-se distantes do seu significado para a cultura contemporânea neste início de século.
Palavras-chave
Keywords
Como citar
ANELLI, Renato Luiz Sobral. Da integração à autonomia: arte, arquitetura e cultura no Brasil (1950-1980). In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-23. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19072907.
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

