Cidade contemporânea, estrutura, plano e projeto
Resumo
Cem anos de planos e legislação urbanística em Porto Alegre revelam um progressivo deslocamento de foco, da forma e da estrutura urbana para os sistemas, e após para os processos. A primeira passagem se dá ao final dos anos 50, no contexto de uma mudança de paradigma: o Plano Diretor de 1959-61 aplica normas modernas sobre a cidade tradicional. A segunda se dá com o atual PDDUA: na ausência de paradigma hegemônico em arquitetura ao final do século XX com a coesão interna e a identidade externa do anterior, a cidade ideal do atual Plano não tem mais forma a orientar sua operação. A passagem da estrutura ao processo desloca a ênfase dos processos de crescimento urbano e urbanização aos processos de participação e gestão, que passam a ser entendidos como fins em si, e com progressiva autonomia substituem o próprio Plano. Procura-se entender esse processo ao final do qual a cidade ideal não tem mais forma ou figura; como os planos se articulam com os paradigmas hegemônicos, como seus instrumentos normativos buscam incidir sobre a construção da cidade real, em que espaços urbanos tal incidência é mais explícita, e assim pode ser analisada em toda sua extensão, e como se relacionam com as demais partes da cidade, tributárias de outros modelos e planos. Ainda, o que tal investigação e suas conclusões podem oferecer de original para o entendimento e operação da cidade, em seu crescimento futuro. Planos desenham idéias mais ou menos completas de cidade, não necessariamente complementares, e procuram detalhar os meios e procedimentos normativos para sua consecução. O efeito não é sentido ao mesmo tempo em toda a cidade, nem delimitado precisamente no espaço; a cidade real acomoda distintas formas, originárias dos sucessivos modelos adotados, convivendo num mesmo tempo e espaço. Essa acomodação se dá como colagem, numa justaposição de fragmentos, ou em camadas, como estratos superpostos, ou como combinação das duas formas. A releitura da cidade contemporânea como patchwork permite pensar algumas estratégias para seu projeto e operação: de justaposição e sobreposição, de colagem de fragmentos, e de desvendamento de estratos, procurando reforçar a autonomia interna (e o completamento) de cada fragmento, dentro de uma idéia unificadora geral que assegure coerência, legibilidade e funcionalidade ao todo, e a necessária colagem das partes. Como Colin Rowe, entendemos que a colagem pode ser assegurada pelo projeto. Assim fundamentado, e inspirado em Ítalo Calvino, esboçamos seis propostas para a Porto Alegre do novo milênio. A primeira se refere ao centro; a segunda trata da relação com o rio e sua margem; a terceira envolve a estrutura viária; a quarta, complementar, refere-se aos canais de movimento; a quinta proposta refere-se literalmente ao norte, e a sexta aos bairros e áreas residenciais. Trata-se de um retorno à estrutura, legitimado pelo alto grau de autonomia das partes, e pelo desenho de uma matriz espacial e conceitual capaz de dar suporte aos distintos sistemas e processos em desenvolvimento na cidade: “Cidade ideal como metáfora e cidade colagem como estratégia”.
Palavras-chave
Como citar
ABREU FILHO, Silvio Belmonte de Abreu. Cidade contemporânea, estrutura, plano e projeto. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-16. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073015.
Referências
- ABREU FILHO, Silvio Belmonte de. Porto Alegre como Cidade Ideal. Planos e Projetos Urbanos para Porto Alegre. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2006 (Tese de Doutoramento em Arquitetura).
- ALMEIDA, Maria Soares de. Transformações Urbanas. Atos, Normas, Decretos, Leis na Administração da Cidade; Porto Alegre 1937/1961. São Paulo: USP, 2004. (Tese de Doutoramento, FAUSP, 2004).
- CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. (tradução Diogo Mainardi) São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- CALVINO, Italo. Seis propostas para o novo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CONVÊNIO UFRGS/PMPA. Estudos para reformulação do 1º Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Porto Alegre (GT 3.4/Dispositivos de Controle das Edificações). Porto Alegre: PROPAR/UFRGS, 1996.
- DIEZ, Fernando E. Buenos Aires y algunas constantes en las transformaciones urbanas. Buenos Aires: Editorial de Belgrano, 1996.
- DIEZ, Fernando E. Crisis de Autenticidad: Câmbios em los modos de produción de La arquitectura argentina. Buenos Aires: Donn/Summa+libros, 2008.
- JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
- LOUREIRO DA SILVA, José. Um Plano de Urbanização. Porto Alegre: Ed. Globo, 1943. PORTO ALEGRE (CIDADE). Plano Diretor 1954 - 1964. Porto Alegre: Prefeitura Municipal, 1964.
- LOUREIRO DA SILVA, José. 1º Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Porto Alegre (Memorial justificativo e Lei Complementar nº 43, de 21/07/1979). Porto Alegre: PMPA/SPM, 1980.
- LOUREIRO DA SILVA, José. Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental de Porto Alegre PDDUA (Lei Complementar nº 434/99). Porto Alegre: PMPA/SPM, 2000.
- ROSSI, Aldo. La arquitectura de la Ciudad. Barcelona, Gustavo Gili, 1976.
- ROWE, Colin; KOETTER, Fred. Ciudad Collage. Barcelona: Gustavo Gili, 1981. SOLÀ-MORALES, Manuel de. Las formas del crecimiento urbano. Barcelona: Edicions UPC, 1997.
- SOUZA, Célia Ferraz de. Plano Geral de Melhoramentos de Porto Alegre: o plano que orientou a modernização da cidade. Porto Alegre: Armazém Digital, 2008.
- ROWE, Colin; KOETTER, Fred. Ciudad Collage. Barcelona: Gustavo Gili, 1981, p. 177.
Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

