A Intervenção de Meyer Shapiro no Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte
Resumo
Em setembro de 1959, reuniram-se, participantes estrangeiros e brasileiros para o “Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte”, convocado por ocasião da construção de Brasília. Como afirmavam seus organizadores, o congresso estava aberto a todo tipo de críticas ao tema proposto, a síntese das artes. Como resultado, vozes dissonantes se fizeram ouvir: em sua apresentação (seção Artes Plásticas) Meyer Shapiro foi explícito ao indicar suas incertezas a respeito do “programa e propósito de criar uma integração e uma síntese das artes”, alertando que este “pode conter um programa para a arte em seu conjunto”. Sua inquietação abrangia duas dimensões: a primeira era conceitual, a segunda referia-se a seus desdobramentos na prática artística e social. Shapiro vinculou o ideal da síntese das artes ao pensamento e aos traumas ocasionados pela passagem para a Modernidade, indicando como alguns historiadores do século XIX, tentando resolver problemas sociais nos quais se encontravam imersos, começaram a enxergar na arte do passado uma correlação entre a existência de um estilo artístico homogêneo e a de uma comunidade harmônica. Denuncia esta correlação como ilusão histórica: a visão de uma arte grega ou da Idade Médias homogêneas “como modos de expressão e de vida comunal’” era “fruto de uma nostalgia real e de uma construção ideológica” de “pensadores que queriam restaurar um dado tipo de sociedade”. A seguir, remetendo esta discussão para o presente, alerta que “este modo de pensar analógico em termos de estreita relação entre as formas de existência social e as formas de arte (...) é algo que temos que encarar com espírito mais crítico”. Aponta a diversidade e complexidade da sociedade contemporânea em defesa da pluralidade das experimentações artísticas e a importância da pesquisa estética individual. Esta última, ao incorporar simultaneamente elementos subjetivos e coletivos, pode revelar um alcance social insuspeitado. Prossegue posicionando-se contra uma arte programática que pregue que ”a arte do passado acabou, a arte individual não pode mais existir, tais e tais modos de viver estão excluídos e precisamos trabalhar de tal e tal maneira’’. A desconfiança de Shapiro destoa da posição da maioria dos participantes no congresso: é apenas ao final de sua fala que procura uma formulação positiva para a síntese das artes. Para tanto, se utiliza de um exemplo inusitado: contrasta duas práticas do caminhar urbano, o passeio a pé e a procissão. Em ambas encontra a presença da ordem formal e social, mas assumindo significados distintos. A liberdade de movimento no primeiro caso pressupõe um ambiente urbano organizado, mas que não é determinada por esta ordem. Esta apresentação se propõe a analisar a fala de Shapiro, procurando vincular suas criticas a questões que emergiriam com vigor nas discussões sobre arte e cidade a partir dos anos 1960 no contexto americano, tais como a historiografia da arte ou da arquitetura modernas, a relação entre espaços públicos e privados ou o papel do elemento estético no campo de conflito que é o espaço urbano.
Como citar
SANTOS, Fábio Lopes de Souza. A Intervenção de Meyer Shapiro no Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-15. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073051.
Referências
- GABRIEL, Marcos Faccioli. [Artigo em Novos Estudos Cebrap].
- Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica). Anais do Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte, 1959, mimeo, transcrição por Mary Pedrosa.
- SCHAPIRO, Meyer. A arte moderna: séculos XIX e XX. São Paulo: Edusp, 1996.
- SCHAPIRO, Meyer. Mondrian: a dimensão humana da pintura abstrata. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
- SCHAPIRO, Meyer. A unidade da arte de Picasso. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
- SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: reflexões e percepções. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
- SCHAPIRO, Meyer. Estilo. Buenos Aires: Ediciones 3, 1962.
Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

