Uma composição purista para 3 milhões de habitantes: a influência do Purismo na composição da cidade-modelo de Le Corbusier
Resumo
Este artigo procura estabelecer relações temáticas e compositivas entre a Cidade Contemporânea para 3 Milhões de Habitantes, modelo de cidade apresentado por Le Corbusier em 1922, e a pintura purista de Jeanneret, verdadeiro nome do arquiteto franco-suíço com o qual assinava suas telas. São investigadas as relações entre os discursos e práticas do arquiteto-pintor em ambos os campos de atuação e o intercâmbio de experiências entre eles. O purismo foi uma vanguarda artística pós-cubista fundada por Jeanneret e Ozenfant cujo principal forma de divulgação foi a revista L’Esprit Nouveau, editada na década de 1920. Trabalhava com temática figurativa mas selecionando como tema determinados objetos-tipo como garrafas, pratos e instrumentos musicais. Para os puristas, estes objetos já haviam passado por um processo de aprimoramento da forma regido pela lei de seleção mecânica, que considerava que a forma de um objeto seria gradualmente evoluída em direção a um ponto ideal entre a máxima utilidade do objeto, atendimento eficiente de suas funções, e a máxima economia de produção. Segundo esse princípio, a forma evoluída tenderia invariavelmente à conformação com as leis da natureza e da geometria. Além da escolha dos objetos representados, a organização dos mesmos na tela purista segue uma estrutura igualmente baseada na geometria, na simetria e na proporção áurea. Consideram os puristas que a beleza surge da geometria, em primeiro lugar porque expressa a razão, a organização e o domínio sobre o caos. Por outro lado, estando o corpo humano, a natureza e o universo construídos sobre leis geométricas, o homem reconhecerá na arte assim concebida a mesma estrutura superior que rege seu próprio corpo, e por isso ela lhe será bela. Da mesma forma, no processo de composição de sua Cidade Contemporânea, Le Corbusier concede-se um terreno plano, como uma tela branca a ser pintada, e nele dispõe seus edifícios sobre uma estrutura geométrica, baseada na simetria e na proporção áurea, como se distribuindo objetos-tipo em uma tela purista. Na realidade, para o arquiteto, seus módulos habitacionais e seus arranha-céus são eles mesmos habitações-tipo e torres-tipo, uma vez que tiveram sua forma aprimorada segundo a lei de seleção mecânica, ou seja, sua forma correspondia à sua máxima utilização, garantida por uma visão funcional do objeto arquitetônico, enquanto o sistema modular de estrutura pré-fabricada atingia maior economia no processo de produção através da substituição dos ultrapassados métodos da construção civil pela moderna produção industrial fordista. A intercambialidade de métodos e procedimentos entre o arquiteto e o pintor, duas faces do mesmo artista moderno, faz com que Le Corbusier atribua à sua arquitetura os mesmos valores de eternidade, verdade e legítima modernidade atribuídos à sua vanguarda pictórica. O artigo encerra-se analisando esses desdobramentos na tentativa de abordar o urbanismo da Cidade Contemporânea pelos olhos do pintor Jeanneret e das artes plásticas.
Palavras-chave
Como citar
QUINTANILHA, Rogério Penna. Uma composição purista para 3 milhões de habitantes: a influência do Purismo na composição da cidade-modelo de Le Corbusier. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-17. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073073.
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

