O jardim como ordenamento da natureza e a poética de Burle Marx

p. 1-18

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Brasil, Rio de Janeiro, 2009

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19073099

Resumo

No panorama da arquitetura brasileira um elemento construtivo permanece atuando com funcionalidade e imponência: o azulejo. Com papel coadjuvante nos sistemas principais da obra, persiste como intérprete dos distintos tempos que produziram nosso patrimônio. Da ambientação do período colonial à ruptura e inovação do modernismo, adapta-se criando inesperadas situações sob a direção de novos autores. Em 1808, quando da chegada da família real, existiam no Brasil os mesmos motivos, estilos e fabricantes de azulejos existentes em Portugal. Predominavam os painéis figurativos com cenas religiosas e épicas que revestiam paredes de igrejas, conventos e solares residenciais. Com a chegada da Missão Francesa ao Brasil, em 1816, coincidindo com a liberação das importações e com a guerra civil em Portugal, fato que impediu sua fabricação, são importados azulejos inicialmente da França, Inglaterra e Holanda e, posteriormente da Bélgica, Espanha e Alemanha. Após a guerra civil, com a desativação da fábricas portuguesas e a concorrência de outros países, os azulejos provenientes de Portugal são na maioria com padrões de tapeçaria. Seja como painel narrativo religioso, sob a forma de tapetes ou unidades padrões, mantiveram sua capacidade de associar comunicação visual e informação à função de revestir espaços como ambientes cenográficos. A passagem do interior para as fachadas ocorre a partir do início do Século XIX, principalmente em cidades litorâneas. Conforme Dora Alcântara, a ocorrência dos primeiros azulejamentos de fachadas em São Luiz do Maranhão acontece a partir do primeiro quartel do Século XIX, A nova utilização de azulejos importados agora da Inglaterra, Alemanha, França e Bélgica, entre o final do Século XIX e início do XX, corresponde à alteração da arquitetura de características coloniais ao requinte das Neoclássicas e Ecléticas, atingindo também manifestações Art Nouveau e Art Deco. Entre 1920 e 1930, painéis de azulejos são incorporados à arquitetura assumindo o papel de ilustração de referência histórica do neocolonial brasileiro ou luso-brasileiro, formulado principalmente nas obras Victor Dubugras e Wasth Rodrigues. É na ruptura estabelecida pelo modernismo que acontece sua virada criativa adotando o "nacional" como tema, impulsionada nas autorias de Athos Bulcão, Portinari, Burle Marx, Djanira, Paulo Rossi-Ozir, entre outros. O azulejo assegura participação neste importante momento da arquitetura brasileira sob novas linguagens. Permanecem os grandes painéis narrativos religiosos e temas populares, na forma de tapetes ou unidades padrões repetidas. Composições geometrizadas, unidades modulares e elementos gráficos estilizados asseguram a anterior capacidade de associar comunicação visual e informação à função de revestir espaços como ambientes cenográficos, agora em paredes cegas ou entre os pilotis da nova arquitetura. Os temas reforçam a nacionalidade brasileira e a afirmação de sua identidade em contraponto com o receituário do movimento moderno internacional.

Palavras-chave

Como citar

POLIZZO, Ana Paula. O jardim como ordenamento da natureza e a poética de Burle Marx. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-18. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073099.

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Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4