Ressaca Tropical

p. 1-15

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Brasil, Rio de Janeiro, 2009

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19073151

Resumo

Em Ressaca Tropical [Instituto Cultural Banco Real, Recife, 2009], com Recife como ponto de partida Jonathas de Andrade constrói com a fricção de documentos, uma ficção de cidade: acervos de fotografia de origens e naturezas distintas são editados no espaço da galeria em relação às páginas de um diário anônimo de apontamentos da década de 70. Diante da exposição, o olhar precisa constantemente ajustar o foco entre escalas distintas sobrepostas, transitando entre a leitura do texto datilografado, fotografias aéreas, imagens de lugares, de arquiteturas e da vida cotidiana, cruzando o limite da intimidade. As imagens costuram um tempo qualquer, o mesmo do diário, nas diversas temporalidades que se sobrepõem em um Recife qualquer, uma cidade tropical qualquer. Cidade que confunde o construir e o destruir, e assim nunca esta pronta. Um retrato suspenso de cidade onde os diversos presentes estão sempre impregnados de passado, entretanto impreciso e frágil. A arquitetura e a cidade são tratadas como essa imensa concreção material em constante reconstrução sobre si mesma, em constante dialética com a vida que nela faz ninho, que enfrenta sua realidade e acontece [também] em suas brechas e buracos, em suas disponibilidades sejam elas construídas deliberadamente ou não. É neste cenário que age o desejo e sobre este cenário que a cidade se torna a casa do homem. É com este olhar que o trabalho volta-se para uma busca pelo sentimento de um modernismo tropical pósutópico. A arquitetura moderna é objeto de investigação nas fotografias de autoria do artista que integram a constelação de imagens. Esta atenção específica anuncia uma discussão mais ampla do moderno materialidade e projeto - visto já como elemento incorporado à cidade e seu emaranhado. A pós-utopia chega não sob a sombra do fracasso de um projeto de progresso, mas simplesmente como uma condição, com suas marcas, desdobramentos e possibilidades. A proposta deste texto é retomar um dos processos de interlocução que permearam a concepção de Ressaca Tropical – entre Jonathas de Andrade, artista, e Cristina Gouvêa, arquiteta – sistematizando as questões e referências que foram sendo trabalhadas de forma fluida ao longo do processo, à luz da exposição concretizada. Remexer um bastidor para apurar e ajustar os termos dos paralelos e tranversalidades que se configuraram. Procura-se apresentar Ressaca Tropical desde os pontos de contato que se estabelecem entre arte e arquitetura. Fazê-lo considerando que o trabalho não só trata da arquitetura e da cidade, mas que se constitui como metáfora sua. Investigar como, além de usar a cidade como elemento de representação de certos aspectos da condição humana e de uma condição brasileira periférica, o trabalho constrói-se ele mesmo a partir de uma lógica emprestada da cidade. Lógica que aparece em vários aspectos, dos quais o mais significativo está na incorporação da natureza sistêmica de um todo que, mais do que somatória de partes, é articulação de elementos autônomos, mas não independentes que se organizam em diversas categorias sobrepostas e intercambiadas, cujo arranjo espacial é ao mesmo tempo o dado último e a primeira camada de leitura.

Palavras-chave

Abstract

In Ressaca Tropical [Instituto Cultural Banco Real, Recife, 2009], with Recife as a starting point, Jonathas de Andrade builds a fiction of the city through the friction between documents: photo collections from different sources and natures are arranged in the gallery's walls in relation to the pages of an anonymous diary of short notes from the 70's. In the gallery, one’s eyes constantly need to adjust the focus between different overlapping scales, shifting between the typescript diary, aerial photographs, images of places, of architectures and of everyday life, crossing the borders of intimacy. The images sew an indefinite time, as in the diary, throughout the different temporalities overlapping in an indefinite Recife, an indefinite tropical city. This city confuses construction and destruction, so that it is never finished. A portrait of the city takes place where the present is always impregnated with past, a vague and fragile past. The architecture and the city are treated as a huge material concretion in constant self-rebuilding, in constant dialectic with the life nested in itself, facing the reality and existing [also] in the gaps and holes, whether they are deliberately built or not. This scene is where desire acts and where the city becomes the home of man. Under this sight, Ressaca Tropical goes through a search for a sense of post-utopian tropical modernism. Modern architecture is the object of research in the photographs taken by the artist, taking part on the constellation of images. This specific attention announces a broader discussion of the modern – as materiality and as project - seen as something already incorporated into the city and its entanglement. The post-utopia comes not under the shadow of a project to progress’s failure, but simply as a condition, with its brands, developments and opportunities. The purpose of this text is to resume one of the dialogue processes that permeated the design of Ressaca Tropical - between Jonathas de Andrade, artist, and Cristina Gouvêa, architect - systematizing the questions and references that were taken in a fluid approach during the procedure, under the light of the work achieved. It is to rummage a frame to determine and adjust the terms of the parallels which have taken place. It seeks to bring up Ressaca Tropical from the points of contact that it establishes between art and architecture. To do so considering that the work not only deals with the architecture and the city, but it is made as its own metaphor. To investigate how, besides using the city as a representation of certain aspects of the human condition and of a Brazilian peripheral condition, the work itself is built from a logic borrowed from the city. Logic which appears in many aspects, of which the most significant is the incorporation of the systemic nature of a whole that, more than a sum of parts, is the articulation of autonomous but not independent elements, which are organized into overlapped and exchanged categories, whose spatial arrangement is at the same time the last result and the first layer for reading.

Keywords

Como citar

GOUVÊA, Cristina Lino; SOUZA, Jonathas de Andrade. Ressaca Tropical. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-15. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073151.

Referências

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Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4