Irmãos Roberto: fenômeno ou continuidade?
Resumo
A história da arquitetura moderna no Brasil é contada, de maneira geral, a partir da interpretação de um elenco de fatos considerados principais, cujas escolhas remontam às publicações internacionais do início da década de 1940. A repetição sistemática dessa narrativa, seguramente até a década de 1980, acabou por sedimentar uma compreensão distorcida desta expressão. A origem e o desenvolvimento do movimento moderno no Brasil encontram-se ligados a fatos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro. A narrativa dominante da história do movimento moderno, baseada na repetição viciada de fenômenos eleitos pelas publicações internacionais, sem explicações plausíveis sobre origens e motivos, impede o desenvolvimento de teorias contemporâneas que possam auxiliar na retomada de uma prática artificialmente interrompida. As produções de arquitetura e de urbanismo, no Brasil atual, embora dispondo de investimentos financeiros maiores do que os das décadas 1930, 1940 e 1950, não lhes são comparáveis em termos qualitativos. Tal realidade, decorrente da falta de orientações teóricas adequadas, aponta para a necessidade de novas investigações, como, de certa forma, já se percebe surgir. O questionamento de uma suposta trama historiográfica, presente na argumentação de alguns autores brasileiros contemporâneos, permite prever a aproximação de um novo entendimento do passado recente, revisão de conceitos que possa promover o desenvolvimento teórico desejado. A arquitetura produzida no Rio de Janeiro, a partir de meados da década de 1930, vem sendo descrita e interpretada com especial atenção aos exemplos fenomenais. Por outro lado, a filiação dos arquitetos cariocas à catequese corbusiana é repetitiva, dotando-os de dependência estrangeira. Menosprezam-se o valor da capacidade construtiva, da adaptação técnica de profissionais construtores e da habilidade e da arte dos jovens arquitetos locais. Questiono a forma de interpretação vigente da gênese, do estabelecimento, do auge e do declínio do movimento de arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Seria possível considerar a continuidade como uma melhor explicação para o conjunto da obra, continuidade, baseada no saber construir, no saber adaptar as técnicas evoluídas à realidade tropical e no fazer artístico brasileiro? Relativizando-se a importância dos exemplos fenomenais, e da contribuição estrangeira na gênese do movimento, ter-se-ia encontrado um outro sentido e, consequentemente, o trilho de uma outra teoria? O estudo da obra dos irmãos Roberto comprova a tese da continuidade e da autonomia de pensamento perante as principais correntes teóricas da época. Mais do que de exemplos fenomenais, a produção do escritório dispõe de uma impressionante quantidade de realizações de qualidade, pouco divulgada e estudada. Dentre as lacunas existentes na literatura da arquitetura produzida no Brasil, verifica-se a ausência de um trabalho aprofundado da obra dos irmãos Roberto. Este trabalho apresenta a produção arquitetônica e urbanística oriundas de uma organização profissional exemplar, fatos suficientemente eloqüentes para comprovar as virtudes da continuidade do saber construir e para questionar a tese vigente do fenômeno.
Palavras-chave
Como citar
SOUZA, Luiz Felipe Machado Coelho de. Irmãos Roberto: fenômeno ou continuidade?. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-16. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073350.
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4

