Integração das artes e a força do moderno brasileiro

p. 1-10

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Brasil, Rio de Janeiro, 2009

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19073438

Resumo

A peça de arte integrada na obra de arquitectura como resultado de uma estreita colaboração entre artista e arquitecto é um tema associado à arquitectura do movimento moderno, em oposição à utilização de elementos desintegrados, como por exemplo um motivo escultórico apenso a um muro, com um fim meramente decorativo como ocorria na arquitectura da tradição. Em Portugal nos anos 20 e 30, num período de processo duma arquitectura modernista, assistimos a um “movimento decorativo” (França, 1979) cujo objectivo era “vestir à moda” lojas, cafés e outros estabelecimentos. A estas “arquitecturas fictícias aliava-se então aquela que (…) se exprimia em pavilhões decorativos” (França, 1979), feiras industriais ou de propaganda política, e mais tarde nos liceus, nas gares marítimas, hospital escolar e na cidade universitária. Nos novos edifícios públicos que o regime salazarista constrói no final dos anos 30, encontramos peças de arte notáveis de Almada Negreiros, entre outros, num “conceito preso mais a uma ideia de narrativa, de ilustração de um tema” (Tostões, 1995). Neste cenário (França, 1979) e no âmbito da exposição do mundo português de 1940, uma nova geração despertou com a presença do quadro “o café” (figura 1), de 1935, de Cândido Portinari no pavilhão do Brasil, abrindo-se assim novas perspectivas sociais na arte e na arquitectura. Trata-se de uma pintura que retrata o trabalho nas plantações de café, com um “realismo” exagerado nas formas mas também no conteúdo do tema: uma classe social marcada pelo sofrimento. Figura 1 – “o café”, Cândido Portinari Sabendo que a arquitectura do movimento moderno é uma proposta formal, técnica e também ideológica, esta última dimensão vai-se revelar também através do poder da mensagem da obra de arte, na sua interligação com o edifício, isto é através de uma synthèse des arts. Algo de novo surgia assim no meio português, na década de 40, antes do fim da guerra: a adopção dos “códigos internacionais por uma via marcadamente brasileira numa afirmação de dinamismo, alegria, vibração positiva, desejo manifestado de libertação” (Tostões, 1995). Na divulgação desta nova arquitectura de liberdade foi determinante a edição de 1943 do álbum “Brasil Builds, Architecture new and old: 1652-1942”, um livro que rapidamente chegou às mãos dos jovens arquitectos portugueses que ali encontraram um universo de novas formas e sobretudo um estímulo para a vontade de construir o moderno. Ali encontraram uma década de experiência de construção, no emprego das tonalidades próprias dos novos materiais e na aplicação directa das cores ruma expressão plástica surpreendente, na integração das 3 artes: escultura, pintura e arquitectura, na formalização da obra total. O painel de azulejo surge então como um desafio de modernidade retomando-se “de um modo qualificado aquele revestimento tradicional de fortes raízes na cultura e na arte decorativa portuguesas” que o Brasil moderno havia já valorizado (Tostões, 1995). Foi esta segunda geração que, no I congresso nacional de arquitectura em 1948, se exprimiu com entusiasmo e convicção política sobre os novos caminhos da arquitectura moderna portuguesa em direcção aos modelos internacionais.

Palavras-chave

Como citar

FONSECA, João Pedro; TOSTÕES, Ana. Integração das artes e a força do moderno brasileiro. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 8., 2009, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: PROURB-UFRJ, 2009. p. 1-10. ISBN 978-85-88027-11-4. DOI: 10.5281/zenodo.19073438.

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Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Brasil: anais: cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre et al. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Rio de Janeiro. ISBN 978-85-88027-11-4