Brasília, discurso ou narrativa?: questões sobre preservação e identidade cultural

p. 1-11

Capa dos anais

9º Seminário Docomomo Brasil, Brasília, 2011

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19073890

Resumo

O objetivo do artigo é refletir acerca de Brasília, reconhecida em 1987, como patrimônio e fenômeno de construção de identidade cultural. A capital brasileira dividiu a crítica, em um primeiro momento, em dois discursos opostos. O primeiro interpreta a configuração da cidade como uma versão literal do modernismo Europeu. Rejeitada pelos críticos era considerada por demais homogênea e artificial, sem identidade cultural. O segundo adotou a estratégia de relativizar as influências do CIAM e de Le Corbusier no sentido de acentuar o caráter original como ápice do modernismo brasileiro, e ao mesmo tempo, revelar ‘uma’ identidade endêmica à formação cultural. Entretanto, ambos os discursos identificam Brasília primordialmente com o Relatório de Lucio Costa, documento vencedor do concurso em 1957. A despeito de uma terceira via crítica que se estrutura em um segundo momento, a partir dos anos oitenta, o fato é que grande parte das análises de apropriação do projeto ainda é vista como mero reflexo de acertos ou erros do plano piloto. O espaço projetado de Brasília não se apresenta, no discurso oficial, como um processo contínuo de (re)configuração de identidades. A inserção da cidade na Lista do Patrimônio Mundial institui o que Michel Foucault denomina da ordem do discurso, um discurso construído a partir da criação de uma identidade legitimadora que não se pauta no princípio de compreensão social, mas se reconhece no Plano Piloto projetado de 1957. Por meio da teoria narrativa do filósofo Paul Ricoeur, o artigo reposiciona o conceito de identidade no contexto do patrimônio moderno. Segundo Martin Heidegger, o habitar o mundo é indissociável do construir. Diante dessa premissa, Ricoeur interpreta a ação do projetar e do construir como a materialização de narrativas de experiências e vivências. Por vezes, essa pluralidade é fonte de tensão e contradição, entretanto é o que nutre a ação mimética da configuração arquitetônica. Ao invés de discursos, argumenta-se que a identidade é uma ação narrativa que manifesta contradições e significados que se edificam e re-edificam na arquitetura de Brasília.

Palavras-chave

Abstract

This paper analyzes how Brasilia as a World Heritage in 1987 relates to the issue of cultural identity. Two opposing discourses about the Brazilian capital came to the fore. The criticism would denounce the tenets of modernist urban planning as a rupture not only in morphology, but also in architectural culture and history. Brasilia’s urban design was pointed out as a literal version of European modernism. The second reveals the city design as part of 'an' endogenous cultural identity, diminishing the influences of CIAM and Le Corbusier in order to accentuate the unique character as the climax of Brazilian modernism. Nevertheless, both discourses about the planned city identity relates to ‘Pilot Plan’ of Lucio Costa, a document which describes the urban design in 1957. Subsequent analysis of Brasilia would take the city as a mirror of the 1957 urban plan, and consequently delate the social appropriation as a mere reflection of success or failure of it. The geometrically designed space is not considered as part of a continous process of identity collective configuration. In fact, the capital listed as World Heritage established a legitimizing identity, what Michel Foucault calls in “the order of things.”. Through the Paul Ricoeur’s narrative theory, the paper argues the relation of identity and modern heritage. According to Martin Heidegger, dwelling the world is inseparable from the building. Given this premise, Ricoeur makes a parallel between the act of designing and building and the narrative, both are configurations of life and experiences. Sometimes, acts of configuration are sources of tension and contradiction, however, this is what feeds the mimetic action of the architectural plot. In this study, instead of discourses, identity are narratives that manifests the meanings and contradictions that build and re-build the architectural configuration of Brasília.

Keywords

Como citar

SABOIA, Luciana; MEDEIROS, Ana Elisabete de Almeida. Brasília, discurso ou narrativa?: questões sobre preservação e identidade cultural. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 9., 2011, Brasília. Anais [...]. Brasília: PPG-FAU-UnB, 2011. p. 1-11. ISBN 978-85-60762-04-0. DOI: 10.5281/zenodo.19073890.

Referências

  • Campofiorito, Ítalo. “Brasília Revisitada.” Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Edição Especial , 1990. RJ.
  • Carpintero, Antônio Carlos Cabral. “Brasília: Prática e Teoria Urbanística no Brasil.” tese de doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1998.
  • Castells, Manuel. O Poder da Identidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
  • Corona, Eduardo. “Gostar, conhecer e respeitar Brasília.” Arquitetura e Urbanismo, 1970: 79-80.
  • Costa, Lucio. “Brasília Revisitada.” Revista Projeto, julho 1987: n° 100. —. Lucio Costa, Registro de uma Vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.
  • Costa, Lucio. “Memória Descritiva do Plano Piloto.” In Lucio Costa, Registro de uma vivência, by Lucio Costa, 283-297. São Paulo: Editora das Artes, 1997.
  • Costa, Lucio. “O urbanista defende a sua capital.” Revista Acrópole, Julho/Agosto 1970: n. 375/376.
  • Foucault, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
  • Frampton, Kenneth. “Introduction.” In Modern Architectural. A critical history, by Kenneth Frampton, 8-10. London, : Thames and Hudson, , 1985.
  • Gastal, A. (2005). A cidade monumento. Correio Brazilienze , 68-69.
  • Gonçalves, José Reginaldo Santos. A retórica da perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, IPHAN, 1996. GT/Brasília. Síntese de Trabalho – Grupo de Trabalho para Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília. Relatório, Brasília: IPHAN, 1985.
  • Hall, Stuart. “, “Who needs identity?”,.” In Questions of Cultural Identity,, edited by Stuart Hall and Paul du Gay. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications, 2003.
  • Heidegger, Martin. “Building Dwelling Thinking.” In Poetry, Language, Thought, translated by Albert Hofstadter. New York: Harper Colophon Books, 1971.
  • Holston, James. A Cidade Modernista: uma crítica de Brasília e sua Utopia. Translated by Marcelo Coelho. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
  • IPHAN. Cartas Patrimoniais. Brasília: IPHAN, 1995. 23 - 80 p
  • Leitão, Francisco e Ficher, Sylvia. A infância do Plano Piloto: Brasília, 1957 – 1964. In: PAVIANI, A. (Org.) Brasília 50 anos da capital a metrópole. Brasília: Editora UnB. PP. 97 - 135
  • Magalhães, Aloísio. E Triunfo? A Questão dos Bens Culturais no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Brasília: FNPM, 1985. 256 p
  • Medeiros, A. E., & Saboia, L. (2006).
  • Brasilia, World heritage: questions of cultural identity and heritage policy. Cross national transfer of planning ideas and local identity. Nova Delhi: 12th International Planning History Conference. Norberg-Schulz, Christian. Meaning in Western Architecture . New York: Rizzoli, 1974.
  • Regional, IPHAN / 15 Superintendência. PLANO, Piloto 50 anos – cartilha de Preservação de Brasília. Cartilha, Brasília: IPHAN / 15 Superintendência Regiona, 2007.
  • Reis, Carlos Madson. Brasília: Espaço, Patrimônio e Gestão urbana. Brasília: PPG/FAU – UnB (dissertação de mestrado), 2001.
  • Ribeiro, Sandra Bernardes. Brasília: memória, Cidadania e Gestão do Patrimônio Cultural. São Paulo: Annablume, 2005. Ricœur, Paul. “Architecture et narrativité.” Urbanisme 303 (nov-dec 1998): 44-51.
  • Ribeiro, Sandra Bernardes. Percurso do reconhecimento. São Paulo: Edições Loyola, 2006.
  • Ribeiro, Sandra Bernardes. Soi-même Comme un Autre. Paris: Éditions du Seuil, 1990.
  • Riegl, Aloïs. O culto moderno dos monumentos: sua essência e sua gênese. Translated by Elane Ribeiro Peixoto and Albertina Vicentini. Goiânia: Editora da UCG, 2006.
  • RSP Arquitetura Consultoria, GDF. BRASÌLIA Preservando o Patrimônio da Humanidade – Informativo do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília – PPCUB. Informativo, Brasília: GDF, 2010.
  • Saboia, Luciana. Brasília and the modernist void: the central bus station and the struggle for cultural recognition (Ph.D. thesis). Louvian-la-Neuve: Université Catholique de Louvain, 2009.
  • Sinotti, Marta L. Quem me quer, não me quer: Brasília, metrópole-patrimônio. São Paulo: Annablume, 2005.
  • UNESCO. Disponível em: < http://whc.unesco.org/fr/criteres >. Acesso em: 10 fev. 2011

Ficha catalográfica

9º Seminário Docomomo Brasil: anais: interdisciplinaridade e experiências de documentação e preservação do patrimônio recente [recurso eletrônico] / organização: Andrey Rosenthal Schlee, Danilo Matoso Macedo, Elcio Gomes da Silva, Sylvia Ficher. Brasília: UnB-FAU, 2011. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Brasília. ISBN 978-85-60762-04-0