Patrimônio, preservação e poder: reflexões sobre o patrimônio recente
Resumo
Quatro trabalhos foram selecionados para apresentação nesta mesa, que trata do tema "Patrimônio, preservação e poder", dentro do Eixo Temático "Reflexões sobre o Patrimônio Recente".
A apresentação dos trabalhos seguirá uma ordem escalar, tratando de problemáticas urbanas mais amplas, como na localização e tipologia da atividade comercial na escala urbana (Castello & Castello), passando por propostas arquitetônicas relacionadas a temas de arquitetura para a coletividade, embora focadas num autor específico (Ivo Giroto), por uma análise comparativa entre dois projetos relacionados à estrutura do Poder Legislativo (Pereira e Zein), terminando com o estudo de um edifício específico para o Poder Judiciário (Pereira e Szekut). Não é o objetivo aqui resumir os trabalhos — ninguém melhor que os autores para expor seu conteúdo. Antes, ressaltarei pontos que parecem interessantes para a discussão.
O primeiro trabalho — "O Desenho da Cidade: indisciplinado, sempre interdisciplinar" — discorre sobre a distribuição da atividade comercial na cidade de Porto Alegre, remetendo a trabalhos de pesquisa realizados pelos autores e relacionados à elaboração do "Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Porto Alegre", de 1977. Os autores chamam a atenção para a necessidade da abordagem interdisciplinar para o desenvolvimento urbano, referindo-se à literatura no campo da Geografia, Psicologia, Economia, Direito, Comunicação etc. Uma discussão interessante poderia se seguir aprofundando aspectos da contribuição da área disciplinar da Arquitetura para a compreensão da cidade. Além disso, os autores polemizam sobre a avaliação, geralmente negativa, do tipo "shopping center" que, segundo eles, "a crítica odeia mas a população adora". Talvez possamos confrontar a avaliação com tendências de segmentação da cidade, seguindo a lógica da unidade de vizinhança ou, mais ainda, das consequências, para o espaço público, da proliferação de estruturas introvertidas, que têm nos condomínios fechados, além dos shoppings, uma de suas manifestações mais controvertidas.
O segundo trabalho — "Arquitetura para a multidão: explosão demográfica na arquitetura de Fábio Penteado" — trata da arquitetura de um profissional específico, como está no título. Trata de como ele enfrentou a questão da forte urbanização das cidades brasileiras, quando de sua atuação enquanto arquiteto. Revela como a importância do espaço público comparece nas soluções de edifícios específicos, e como seus projetos implicam uma valorização da comunidade — a passagem da "massa" para a "multidão". É um contraponto interessante com o primeiro trabalho, na medida em que o arquiteto trata edifícios tradicionalmente fechados para o âmbito público, como edifícios abertos, ao criar praças e espaços para o convívio público como parte dos programas.
O terceiro trabalho — "A Monumentalidade e sua Implantação Urbana: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e Parlamento Escocês" — compara dois projetos para o Poder Legislativo em dois países distintos e em épocas também distintas (1962 e 1998, respectivamente). Procura identificar como o caráter monumental é traduzido em atributos arquitetônicos nos dois projetos, assim como as maneiras muito distintas que eles se relacionam com o entorno.
Finalmente, o quarto trabalho — "O primeiro palácio moderno de Porto Alegre: documentação, interpretação e lições de arquitetura" — trata do projeto do Palácio da Justiça, um projeto que praticamente inauguraria a tradição moderna na capital gaúcha. É muito interessante comparar este projeto, que data originalmente de 1952, uma década antes, portanto, do projeto para a Assembleia Legislativa de São Paulo. A implantação urbana é uma terceira solução, contrastante com as duas analisadas no trabalho anterior. Este último projeto, sendo o mais antigo dos três, parece muito mais "urbanamente" inserido no entorno imediato, significando isto uma maior integração entre espaços internos e externos, e a incorporação ao edifício de espaços públicos, ou, dito ao contrário, a devolução, pelo edifício, de espaços que seriam de outra forma privados, ao usufruto pleno pelo passante, talvez de maneira muito próxima à que Fábio Penteado explorará depois.
Como citar
HOLANDA, Frederico Rosa Borges de. Patrimônio, preservação e poder: reflexões sobre o patrimônio recente. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 9., 2011, Brasília. Anais [...]. Brasília: PPG-FAU-UnB, 2011. p. 1-3. ISBN 978-85-60762-04-0. DOI: 10.5281/zenodo.19099241.
Ficha catalográfica
9º Seminário Docomomo Brasil: anais: interdisciplinaridade e experiências de documentação e preservação do patrimônio recente [recurso eletrônico] / organização: Andrey Rosenthal Schlee, Danilo Matoso Macedo, Elcio Gomes da Silva, Sylvia Ficher. Brasília: UnB-FAU, 2011. 1 DVD (4 ¾ pol.). Produção do Núcleo Docomomo Brasília. ISBN 978-85-60762-04-0

