Preservação de arquitetura Brutalista: a FAUUSP

p. 1-26

Capa dos anais

10º Seminário Docomomo Brasil, Curitiba, 2013

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19074066

Resumo

O crescente reconhecimento da arquitetura moderna como patrimônio cultural, no início do século XXI, vem estimulando discussões sobre as condutas que devem ser adotadas para a sua preservação. O aumento de intervenções em edifícios modernos demanda uma avaliação das posturas adotadas nestes trabalhos, motivo pelo qual é importante compreender como estas experiências abordaram as questões específicas desta produção. A pequena distância temporal entre a produção da arquitetura moderna e seu reconhecimento como patrimônio cultural dificulta o entendimento de que as recomendações para preservação, colocadas nos documentos do ICOMOS , possam ser utilizadas como parâmetros de projetos de intervenção. Os tombamentos “preventivos” de alguns edifícios modernos, pelo SPHAN , não tiveram continuidade e a relevante produção moderna brasileira, da segunda metade do século XX, demorou a ser protegida. Ou seja, o que era preventivo, acabou não se mostrando eficaz para a preservação do patrimônio. Diversos edifícios modernos emblemáticos foram desfigurados ou demolidos, antes mesmo de serem considerados objetos de tombamento. A proposta deste trabalho é investigar a possibilidade de aplicação das recomendações para preservação de patrimônio na arquitetura moderna, especificamente na chamada arquitetura brutalista, produzida em São Paulo, sendo seu intuito também verificar se as especificidades desta produção estão contempladas nos critérios de preservação e conservação de patrimônios culturais estabelecidos pelo ICOMOS. A questão que se apresenta é de como intervir nesta obra, reconhecida como patrimônio histórico e cultural, de forma a garantir a transmissão dos seus valores para o futuro. Em São Paulo, o edifício da FAUUSP destaca-se como um caso emblemático deste debate, ou seja, sobre as formas de intervenção em uma ação de conservação ou restauro Projetado por Vilanova Artigas (1915- 1985) e inaugurado no final dos anos 1960, é um dos principais edifícios representativos da arquitetura brutalista em São Paulo. Foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1982. O edifício foi projetado em consonância com um projeto de ensino desenvolvido com importante participação do próprio arquiteto. O partido adotado, segundo o próprio autor “defende a tese da continuidade espacial. Seus seis pavimentos são ligados por rampas suaves e amplas, em desníveis que procuram dar a sensação de um só plano. Há uma interligação física contínua em todo o prédio. O espaço é aberto e as divisões e os andares ARTIGAS praticamente não o seccionam, mas, simplesmente lhe dão mais função”. ( , 1997) Passados mais de 40 anos, o edifício necessita de intervenções de diversos caracteres: atualização das instalações, aumento de área, conservação e manutenção. Todas devem ser consideradas restauro, a fim de garantir sua preservação. Nos últimos anos, alguns projetos de intervenção evidenciaram certa negligência, do ponto de vista de preservação, em relação ao edifício. Cabe, portanto, compreender como atuar neste patrimônio, tirando máximo partido de suas virtudes.

Palavras-chave

Abstract

The growing recognition of Modern Architecture as cultural heritage in the beginning of the 21st century has fostered discussions about the conducts to be adopted for this preservation. The increasing works on the modern architectural heritage requires an assessment on the adopted stances for the performance of such intervention. For this reason, it is paramount to understand approaches to these projects. The brief span of time between the modern architectural production and its recognition as cultural heritage renders it difficult to understand the guidelines for the preservation, as stated in the ICOMOS documents to be utilized as parameters for intervention projects. The so called “preventive” historical preservation of some modern buildings, as has been done by the SPHAN has faced discontinuities, and the bulk of the Brazilian modern architectural produced in the second Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo International Council on Monuments and Sites Federal Agency for the Protection of Cultural Heritage ⏐ half of the 20th century has taken too long to be listed. In other words, what was first meant to be preventive ended up ineffective for actually preserving this heritage. Several modern architectural beacons have been deeply altered or demolished even before having been recognized as a cultural heritage. The aim of this paper is to investigate the possibility of applying the guidelines of heritage preservation for modern architecture, especially for the so called “brutalist” architecture produced in São Paulo in the 60s. We also aim at verifying whether those specific particularities of the architectural production are comprehended in the established criteria of the preservation and restoration documents. The question to be raised is how to work on in those architectural buildings so as to guarantee that their values are conveyed for the future. Located on the campus of the University of São Paulo, in the city of São Paulo, the building of Architectural School stands out as highly representative of this discussion, namely, about the forms of intervention for either a conservation or a restoration process. It was projected by Vilanova Artigas (1915-1985) and inaugurated in the late 1960’s. It’s one of the most representative examples of the brutalist architecture in São Paulo. In 1982 it was listed as a cultural heritage by the CONDEPHAAT . Artigas developed an articulate syllabus which was the core of the assumption of the project. “stands up for the space continuity. The six floors are to be linked by wide and slightly inclined ramps, unlevelled so as to seem one single floor. There is a physical continuity linking the whole building. The space is open and the walls and floors do not section it, and on the contrary, further assign its function. (ARTIGAS, 1997). After More than 40 years, the building needs interventions of several sorts. All of them are to be considered restoring, so as to guarantee its preservation. Over the last years, some intervention projects have disregarded the preservation of the building. Therefore, it is for us to understand how to intervene in the architectural heritage in order to enhance its virtues and virtues.

Keywords

Como citar

OKSMAN, Silvio. Preservação de arquitetura Brutalista: a FAUUSP. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 10., 2013, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. p. 1-26. ISBN 978-85-60188-14-7. DOI: 10.5281/zenodo.19074066.

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Ficha catalográfica

10º Seminário Docomomo Brasil: anais: arquitetura moderna e internacional: conexões brutalistas 1955-75 [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-14-7