As casas unifamiliares de Carlos Millan

p. 1-30

Capa dos anais

10º Seminário Docomomo Brasil, Curitiba, 2013

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19074108

Resumo

O arquiteto paulista Carlos Barjas Millan fez parte da primeira geração de arquitetos formados em escolas de arquitetura de São Paulo. Sua vida foi curta (1927-1964), abreviada por um trágico acidente de automóvel aos 37 anos de idade. Sua produção, entretanto, foi intensa durante 15 anos de atuação nas décadas de 1950 e 60 e repercute até hoje no panorama da arquitetura moderna brasileira. Formado na Universidade Mackenzie, atuou em entidades de classe como IAB e CREA; teve carreira docente na Mackenzie e na USP; foi sócio de uma loja de móveis contemporâneos; atuou politicamente junto à igreja dominicana; e, acima de tudo, dedicou-se intensamente à prática de arquitetura, com uma produção de aproximadamente 70 projetos, construídos ou não. A grande maioria foi de casas unifamiliares, dos mais diferentes tipos – isoladas, conjugadas, reformadas, urbanas ou não –, para vários tipos de clientes, em diferentes tipos de lotes, projetadas em parceria ou individualmente, muitas delas reconhecidas ainda hoje por seu valor arquitetônico. Após sua morte, o arquivo de seus projetos foi doado à biblioteca da FAU-USP. Mas, talvez pela brevidade de sua existência, pouco foi produzido e publicado sobre sua obra. Podem ser citados como relevantes: dois trabalhos acadêmicos de doutorado e mestrado (FAGGIN, 1992 e MATERA, 2005); publicações em revistas Acrópole (números 317 e 332) e AU (número 54); algumas publicações sobre obras paulistas que incluem casas de sua autoria (ACAYABA, 2011; XAVIER; LEMOS; CORONA, 1983); alguns textos disponíveis na internet (CAMARGO, 2013), etc.; afora farto material relativo ao Brutalismo Paulista (ZEIN, SANVITTO, ACAYABA, FUÃO, etc.). As casas mais conhecidas e publicadas são três: Roberto Millan (1960), premiada na IV Bienal de São Paulo; Nadyr de Oliveira (1960); e Antônio D’Elboux (1962-64). Todas se enquadram na fase final de sua breve carreira, quando sua arquitetura já apresentava com nitidez características de uma escola de arquitetos que se formava em São Paulo nos anos 50-60 e cuja produção ficou conhecida como Brutalismo Paulista. O arquiteto Vilanova Artigas, professor da FAU-USP, é considerado o principal mentor dessa escola. O objetivo deste trabalho é lançar um breve olhar sobre a produção residencial unifamiliar de Millan, desde suas origens nos anos 50, quando são propostas suas primeiras casas, até os anos 60, sua fase de maturidade. Em regra com telhados, beirais, plantas e volumes aditivos, as casas iniciais tinham influências de Wright, Neutra, Breuer e Rino Levi. Pelo final dos anos 50, com a Casa Oliva Feitosa (1957), observa-se uma transformação que se acentua nos anos 60, com o uso de coberturas planas e determinados materiais, técnicas e estratégias que passam a ser recorrentes. O foco do trabalho será sua produção unifamiliar dos anos 60, iniciada com a já citada casa para seu irmão, Roberto Millan, e encerrada com a casa na Praia da Lagoinha para Mario Masetti (1964). Essa série de casas pode ser enquadrada no Brutalismo Paulista, mas possui peculiaridades que são próprias de Carlos Millan, conhecido pelo alto nível de detalhamento de seus projetos. Além de arquitetos paulistas contemporâneos, entre eles Artigas, nesta fase Millan recebe influências de mestres internacionais, principalmente de Le Corbusier. As principais casas de Carlos Millan do período 1960-64 serão analisadas segundo aspectos formais e compositivos, considerando os seguintes critérios: volumetria, tipo de planta, base, coroamento, estrutura de suporte, elementos e materiais construtivos, sem perder de vista lote de implantação, programa de necessidades e influências constatadas. Pretende-se buscar certas regularidades e variantes dentro dos exemplos estudados, com base no material constante na bibliografia acima referida.

Palavras-chave

Abstract

HOUSES OF CARLOS MILLAN The architect from São Paulo, Carlos Barjas Millan, was part of the first generation of architects graduated in architecture schools in São Paulo. He lived a short life (1927-1964), which was abbreviated by a tragic car accident at 37. His work, however, was intense for 15 years between the 50s and the 60s and is relevant until today in the modern Brazilian architecture scene. Graduated at Mackenzie University, he acted in class entities such as IAB (Brazilian Architect’s Institute) and CREA (Regional Council of Engineering, Architecture and Agronomy); had a teaching career at Mackenzie and USP Universities; was a partner of a contemporary furniture store; acted politically within the Dominican Church; and, above all, dedicated himself intensely to architecture, with an output of approximately 70 projects including built and unbuilt. The vast majority of those projects was for one-family houses of many different types – either isolated, conjugated, refurbished, urban or not urban – for all sorts of clients, in different lots, projects done either with partners or by Millan individually; many of them recognized until today by their architectural value. After his passing away, his project archive was donated to the FAU-USP library. But, perhaps for the briefness of his existence, little of his work was actually published. Relevant citations include: two academic dissertations of PhD and Master (FAGGIN, 1992 and MATERA, 2005, respectively); publications in the journals Acrópole (numbers 317 and 332) and AU (number 54); some publications on São Paulo architecture that include houses designed by him (ACAYABA, 2011; XAVIER; LEMOS; CORONA, 1983); some texts available online (CAMARGO, 2013), etc.; aside from a bulk of material about the “Brutalismo Paulista” movement (ZEIN, SANVITTO, ACAYABA, FUÃO, etc.). His best known houses about which more was published are the following three: Roberto Millan (1960), winner of an award at the IV Bienal de São Paulo; Nadyr de Oliveira (1960); and Antônio D’Elboux (196264). All of these projects can be placed in the final phase of his short career, when his work presented clear characteristics of an architecture school being formed in São Paulo in the 50s and 60s and whose production was known as “Brutalismo Paulista”. The architect Villanova Artigas, Professor at FAU-USP, is considered the main exponent of this school of architecture. The objective of this paper is to briefly glance at Millan’s one-family residence production, since its origins in the 50s, when the first houses were proposed, until the 60s, which represented his more mature phase. Generally with roofs, eaves, added volumes and plans, his initial homes had influences derived from Wright, Neutra, Breuer and Rino Levi. Around the end of the 50s, with the Oliva Feitosa house (1957), a transformation may be observed that is only accentuated in the 60s, with the use of flat roofs and certain materials, techniques and strategies that then become recurrent. The focus of this work will be his one-family house designs of the 60s, begun with the aforementioned house for his brother, Roberto Millan, and ended by his Lagoinha Beach House for Mario Masetti (1964). This series of houses may be regarded as part of the “Brutalismo Paulista” movement, but possesses peculiarities particular to Carlos Millan, known for his projects’ high levels of detail. Aside from other contemporary São Paulo architects, among them Artigas, this phase in Millan’s work is influenced by international masters, especially Le Corbusier. Carlos Millan’s main houses of the 1960-64 period will be analyzed both from a formal as well as a compositional perspective, considering the following criteria: volume, plan, base, crowning, supporting structure, constructive elements and materials, without overlooking the sites, programs as well as influences observed. Within the aforementioned examples that will be analyzed, certain similarities and variables are sought, using the materials collected in the bibliography quoted above as a source.

Keywords

Como citar

LEÃO, Sílvia Lopes Carneiro. As casas unifamiliares de Carlos Millan. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 10., 2013, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. p. 1-30. ISBN 978-85-60188-14-7. DOI: 10.5281/zenodo.19074108.

Referências

  • ACAYABA, Marlene Milan. Brutalismo caboclo e as residências paulistas. Projeto, São Paulo, n. 73, p. 46-48, mar. 1985.
  • ACAYABA, Marlene Milan. Reflexões sobre o brutalismo caboclo. Projeto, São Paulo, n. 86, p. 68-70, abr. 1986.
  • ACAYABA, Marlene Milan. Residências em São Paulo: 1947-1975. São Paulo: Romano Guerra, 2011.
  • ACRÓPOLE. São Paulo: Gruenwald Ltda., v. 27, n. 317, mai. 1963.
  • ACRÓPOLE. São Paulo: Max Gruenwald & Cia., v. 23, n. 276, nov. 1961.
  • ACRÓPOLE. São Paulo: Max Gruenwald & Cia., v. 27, n. 332, set. 1966.
  • ARTIGAS, Vilanova. Em “branco e preto”. AU, São Paulo, v. 4, n. 17, p. 78, abr./mai. 1988.
  • BANHAM, Reyner. El brutalismo em arquitectura: ética ou estética? Barcelona: Gustavo Gili, 1966.
  • BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.
  • CAMARGO, Monica Junqueira de. Histórias e memórias de um arquiteto. A breve trajetória de Carlos Barjas Millan. Disponível em: www.docomomo.org.br/seminario%206%20pdfs/Monica%20Junqueira%20de%20Camargo.pdf (23/04/2013).
  • FAGGIN, Carlos Augusto Mattei. Carlos Millan: itinerário profissional de um arquiteto paulista. São Paulo: USP, 1992. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 1992.
  • FAGGIN, Carlos. Carlos Millan: o traço que permanece. AU, v. 10, n. 54, São Paulo, p. 97-104, jun./jul., 1994.
  • FAGGIN, Carlos. O ateliê na formação do arquiteto: uma análise crítica o documento apresentado por Carlos Millan na FAUUSP, em 1962. Sinopses: Memória, São Paulo, p. 130-132, 1993.
  • FICHER, Sylvia; ACAYABA, Marlene Milan. Arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Projeto, 1982.
  • FUÃO, Fernando Freitas. Brutalismo: a última trincheira do movimento moderno, dez. 2000. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.007/949 (13/04/2013).
  • HITCHCOCK, Henry-Russel. Frank Lloyd Wright: obras 1887-1941. Barcelona: Gustavo Gili, 1982.
  • MATERA, Sergio. Carlos Millan, um estudo sobre a produção em arquitetura. São Paulo: USP, 2005. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2005.
  • MILLAN, Carlos Barjas. Residência no alto de Pinheiros. Acrópole, São Paulo, v. 23, n. 276, p. 420-423, nov. 1961.
  • SANVITTO, Maria Luiza Adams. O brutalismo paulista: o discurso e a obra. Porto Alegre, PROPAR-UFRGS, 199-?. Digitado.
  • SANVITTO, Maria Luiza Adams. Brutalismo paulista: uma análise compositiva de residências paulistanas entre 1957 e 1972. Porto Alegre: UFRGS, 1994. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1994.
  • SANVITTO, Maria Luiza Adams. As questões compositivas e o ideário do brutalismo paulista. Arqtexto, Porto Alegre, n. 2, p. 98-107, 1º sem. 2002.
  • XAVIER, Alberto; LEMOS, Carlos; CORONA, Eduardo. Arquitetura moderna Paulistana, São Paulo: Pini, 1983.
  • ZEIN, Ruth Verde. A arquitetura da escola paulista brutalista 1953-1973. Porto Alegre: UFRGS, 2005. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
  • ZEIN, Ruth Verde. Brutalismo, escola paulista: entre o ser e o não ser. Arqtexto, Porto Alegre, n. 2, p. 32-57, 1º sem. 2002.
  • ZEIN, Ruth Verde. Brutalismo, sobre sua definição (ou de como um rótulo superficial é, por isso mesmo, adequado), mai. 2007. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.084/243 (12/04/2013).
  • ZEIN, Ruth Verde. Resenha bibliográfica do novo brutalismo: ética e estética. Porto Alegre, PROPAR -UFRGS, 2000. Digitado.

Ficha catalográfica

10º Seminário Docomomo Brasil: anais: arquitetura moderna e internacional: conexões brutalistas 1955-75 [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-14-7