A opção governamental em Minas Gerais por uma padronização de edifícios escolares nos anos 1960-70
Resumo
Este artigo tem por objetivo analisar a proposta estético-construtiva de um conjunto arquitetônico significativo, mas pouco reconhecido.Como foco principal, foram selecionados prédios das escolas estaduais construídos pela Comissão de Construção, Ampliação, Reparo e Conservação dos Prédios Escolares do Estado – CARPE, criada em 1968 e extinta em 1987. Como foco secundário, pretende-se também fazer umabreve abordagem sobre o processo histórico-regional de padronização. Apresentaremos alguns casos identificadosem parte da Zona da Mata mineira. Maria Alice Bastos e Ruth Verde Zein (2011) já estudaram alguns dos resultados da CARPE, dos anos oitenta. Em várias cidades da Zona da Mata mineira, muitos exemplares podem ser vistos e muitos outros também são encontrados espalhados por todo o estado assim como na capital, Belo Horizonte. Seus projetos revelam uma arquitetura de caráter moderno homogêneo que se destaca por sua padronização, fácil construção e ao mesmo tempo flexível o suficiente para adequação às mais variadas demandas. O uso de estrutura modulada em concreto armado e de vedação em alvenaria de tijolo cerâmico maciço, ambos aparentes, de cobertura com amplas águas de telhas capa-e-canal e ausência de revestimentos confrontaram uma visível tradição local da arquitetura escolar e uma falta de iniciativa modernizadora vigente para a produção de espaços de ensino e aprendizagem em larga escala. Em geral, a abordagem não era nova. No período pós-Segunda Guerra Mundial, a reconstrução europeia exigiu da construção civil reações condizentes com o contexto socioeconômico. Embora não tenha sido produzida em série, a concepção da Hunstanton School, em Norfolk (Reino Unido), construída entre 1949-54, pode ser considerada referência inovadora, no que diz respeito à proposta estético-construtiva para a época. O projeto de Alison e Peter Smithson foi logo etiquetado como New Brutalism, em confronto com as abordagens contemporâneas do New Empirism e do New Humanism, (cf. BANHAM. In: HATJE, 1963). Segundo Jencks (1973), esse movimento era cheio de referenciais históricos tanto formais como construtivos. Em uma época de desenvolvimento do parque industrial nacional, a preocupação em economia para o estado e a necessidade de construção de inúmeras escolas, claramente identificáveis de uma política reformista, demandavam a criação de um sistema modular que pudesse facilitar um processo de pré-fabricação in loco de um arcabouço pronto para receber elementos padronizados como esquadrias, peças sanitárias e mobiliário. A construção de tais estabelecimentos em todo o estado visava “garantir índices mínimos de segurança, higiene e eficiência do edifício escolar” conforme o artigo 3º da Lei de Criação da CARPE (n° 4817, de 11/06/1968). Antes disso, uma campanha institucional política de recuperação dos edifícios escolares encabeçada pela CARRPE (1958-68) promoveu um processo licitatório de construção de edifícios padronizados e modulados (em madeira, metal ou concreto) destacando-se essa ação durante a gestão de Magalhães Pinto (1961-66). Nesse programa, quase 400 unidades foram instaladas seguindo um padrão de austeridade tanto estética quanto construtiva. Nesse sentido, busca-se analisar a representatividade de uma linguagem simbólica na padronização de um equipamento urbano de extrema importância em meio ao processo de industrialização do país e equiparação de padrões internacionais.
Palavras-chave
Keywords
Como citar
CAMISASSA, Maria Marta dos Santos; PORTUGAL, Josélia Godoy; RODRIGUES, Gabriela Toledo; LEITE, Marcelo André Ferreira. A opção governamental em Minas Gerais por uma padronização de edifícios escolares nos anos 1960-70. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 10., 2013, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. p. 1-17. ISBN 978-85-60188-14-7. DOI: 10.5281/zenodo.19074163.
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Ficha catalográfica
10º Seminário Docomomo Brasil: anais: arquitetura moderna e internacional: conexões brutalistas 1955-75 [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-14-7

