Brutalismo: fronteiras goianas
Resumo
A arquitetura moderna brasileira é reconhecida por sua considerável diversidade de produção, algo inerente a dimensão continental do país. Goiânia, cidade projetada, é concebida na década de 1930 como produto da “marcha para o oeste”, consolidando sua presença como lugar moderno a partir dos anos 1950. Provenientes basicamente de quatro cidades —Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília—, os profissionais que então atuam em Goiânia são oriundos de centros de ensino de excelência e encontram um ambiente profícuo para desenvolver novos caminhos —ideias, ideais e imaginários—, em um período plural, onde os ecos da arquitetura associada a "escola carioca", passam a dar lugar a razão brutalista, a partir dos anos 1960. Como virtual capital da Região Centro-Oeste do país, a cidade conta com um expressivo legado arquitetônico associado ao "brutalismo”. Um brutalismo de certo modo "fronteiriço", cujo imaginário é identificado com narrativas presentes na produção arquitetônica local e que irá ultrapassar a década de 1980. Estas narrativas avançam além da utilização do concreto armado como paradigma, adotando determinadas elaborações espaciais, formais e técnico-construtivas que permitem adaptar-se as condições e limites locais. Os primeiros exemplares a exibir os reflexos da linguagem brutalista exibem referências formais onde se identificam traços das edificações universitárias de Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, notadamente nos projetos da FAU-USP (1961-8) e da Faculdade de História e Geografia da USP, obras então contemporâneas. É do inicio da década de 1960 o projeto, também no âmbito universitário, para a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (1964), de autoria de Luiz Ozório Leão Duarte, egresso da FAU-USP. A presença do brutalismo na arquitetura goiana irá prolongar-se até o final da década de 1980, na qual se destaca a construção do Terminal Rodoviário de Goiânia (1985) –projeto dos arquitetos Luiz Fernando Teixeira e Moacyr Paulista Cordeiro, ambos formados na FAU-UNB, e que contou com a consultoria de Paulo Mendes da Rocha. Este último, representou um importante marco para a disseminação da linguagem associada a arquitetura brutalista paulistana, ao possuir três significativos projetos construidos em Goiânia: o edifício sede do Jóquei Clube de Goiás (1962), a residência Odilon Moreira (1963) e o Estádio Serra Dourada (1975). Partindo desta premissa, a investigação visa relacionar, de forma circunstanciada, algumas obras capitais desta vertente em Goiânia, procurando identificar e (re)construir histórias, imagens e narrativas, de alguma forma perdidas pelo tempo e paisagens da cidade.
Palavras-chave
Abstract
The modern Brazilian architecture is known for its considerable diversity of production, something inherent in continental dimensions of the country. Goiânia, a city designed, is conceived in the 1930s as a product of the "march to the west", consolidating its presence as a modern place from the 1950s. Basically coming from four cities —Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte and Brasília— the professionals who work in Goiania came from education centers of excellence and find a proficuous environment to develop new pathways — ideas, ideals and imaginary—in a plural period, where the echoes of architecture associated with "Rio School", are giving way to brutalist reason, from the 1960s. As virtual capital of the Midwest Region of the country, the city has a significant architectural legacy associated with the "brutalism". In a way, a "border" brutalism which is identified with imaginary narratives present in architectural production site and that will exceed the 1980s. Such narratives move beyond the use of reinforced concrete as a paradigm, adopting certain spatial, formal, technical and constructive elaborations that need to be adapted to local conditions and limits. Early examples showing the effects of the brutalist language exhibit formal references which identifies traces of university buildings projected by João Vilanova Artigas and Carlos Cascaldi, especially the FAU (1961-8) and the Faculty of History and Geography, both at USP. In the beginning of the 1960s, are built, The Law School and the Education School, two projects built in Federal University of Goiás, designed by Luiz Ozório Leão Duarte, graduated from the FAU-USP, will inaugurate the presence of brutalism in Goiana architecture. This presence will continue strongly until the end of the 1980s, with the construction of Goiania Bus Terminal (1985) design by the architects Luiz Fernando Teixeira and Moacyr Paulista Lamb, both formed in FAUUNB, and which included the consulting Paulo Mendes da Rocha. The latter was an important benchmark for for the spread of the language associated with the brutalist architecture in São Paulo and have three significants projects built in Goiania: the headquarters of the Jockey Club of Goiás (1962), the residence Odilon Moreira (1963) and Serra Dourada Stadium (1975). Based on this assumption, the research aims to relate, in detail, some capital works covered by this strand in Goiania, seeking to identify and (re)construct stories, pictures and narratives, somehow lost in time and city landscapes.
Keywords
Como citar
CAIXETA, Eline Maria Moura Pereira; D'ALÓ FROTA, José Artur. Brutalismo: fronteiras goianas. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 10., 2013, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. p. 1-19. ISBN 978-85-60188-14-7. DOI: 10.5281/zenodo.19074415.
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Ficha catalográfica
10º Seminário Docomomo Brasil: anais: arquitetura moderna e internacional: conexões brutalistas 1955-75 [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Docomomo Brasil; PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-14-7

