Projeto de um país moderno: projetos escolares nas publicações internacionais de Arquitetura Moderna Brasileira

p. 1-15

Capa dos anais

15º Seminário Docomomo Brasil, São Carlos, 2023

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19069944

Resumo

O artigo propõe discutir como a propagação das publicações internacionais a respeito da arquitetura moderna brasileira contribuiu para consolidação da ideia de uma linguagem moderna hegemônica, apresentando os projetos de arquitetura escolar que foram publicados nos livros Brazil Builds de Philip L. Goodwin e Kidder Smith (1943) e Modern Architecture in Brazil de Henrique Mindlin (1956). Na formulação da imagem de um país moderno, o edifício escolar tornou-se uma aposta como instrumento de educação social e estética por serem espaços públicos, de uso coletivo, diverso e cotidiano, abrangendo diariamente um grande número de usuários, ganhando relevância no projeto político-cultural de modernização da nação na propagação de ideias e de experimentações arquitetônicas.

Palavras-chave

Abstract

The article discusses how the spread of international publications on Brazilian modern architecture contributed to the consolidation of the idea of a hegemonic modern language, presenting the school architecture projects that were published in the books Brazil Builds by Philip L. Goodwin and Kidder Smith (1943) and Modern Architecture in Brazil by Henrique Mindlin (1956). In the formulation of the image of a modern country, the school building became an instrument of social and aesthetic education for being public spaces, of collective use, diverse and daily, reaching a large number of users, gaining relevance in the political and cultural project of modernization of the nation in the propagation of ideas and architectural experimentation.

Keywords

Resumen

El artículo pretende discutir cómo la difusión de publicaciones internacionales sobre la arquitectura moderna brasileña contribuyó a la consolidación de la idea de un lenguaje moderno hegemónico, presentando los proyectos de arquitectura escolar que fueron publicados en los libros Brazil Builds, de Philip L. Goodwin y Kidder Smith (1943), y Modern Architecture in Brazil, de Henrique Mindlin (1956). En la formulación de la imagen de un país moderno, los edificios escolares se convirtieron en un instrumento de educación social y estética porque eran espacios públicos, de uso colectivo, diversos y cotidianos, que llegaban a un gran número de usuarios, ganando relevancia en el proyecto político y cultural de modernización de la nación en la propagación de ideas y experimentación arquitectónica. clave: Proyectos escolares. Modernidad brasileña. Publicaciones internacionales de arquitectura. PROJETO DE UM PAÍS MODERNO: PROJETOS ESCOLARES NAS PUBLICAÇÕES INTERNACIONAIS DE ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA A nação moderna a se fazer A ideia de “trama historiográfica”, a partir da análise de Paul Veyne (2008) em que na história formam-se intricadas tramas que surgem a partir de um dado itinerário escolhido, as quais podem levar a diferentes desdobramentos dependendo do caminho percorrido pelo historiador, traça paralelo no que tange a formação moderna e visões de mundo. Sua observação aponta para a complexidade e a variedade de resultados que podem surgir na escrita da história a partir de escolhas metodológicas e conceituais e do olhar do historiador na construção de narrativas e suas fundamentações. Ao centrarmos nossa observação à relação entre arte, identidade nacional e estado, é possível identificar que as discussões da elite intelectual latino-americana permearam uma questão comum concentrada na compreensão de como seus sistemas culturais auxiliariam na constituição das suas respectivas nações modernas. Ao assumir a existência de uma “vanguarda latino-americana” nas primeiras décadas do século XX (SCHWARTZ, 1995), pode-se entender que, o que une a América Latina não são as respostas, mas sim as perguntas. Se a vanguarda europeia buscou no “exotismo” um modo de afirmação de novas formas de fazer e pensar a arte, na América Latina a vanguarda artística levantou questionamentos sobre “quem somos?”, “como somos?” e "como queremos ser vistos?” como meio de procura de uma identidade própria, encontrando na construção da “tradição” um meio de legitimação cultural de uma história nacional (AMARAL, 2003; MARTINS, 2010; ZILIO, 1982). Para Gorelik (2005), a construção de uma linguagem nacional no Brasil nasceu da problemática da “tábula rasa” e, diferente de países com culturas pré-colombianas nas quais o passado se testemunha fisicamente, a vanguarda brasileira buscou nas raízes “perdidas” sua legitimação. Dessa forma, o modernismo brasileiro semeou uma relação mútua entre passado e futuro, o estado-nação moderno que se quer construir. Sob esse aspecto, a arquitetura moderna foi um meio fundamental, em alguns casos, representando e se afirmando como expressão legítima da modernidade nacional, tanto no plano nacional, como e, sobretudo, no internacional. A idealização de uma cultura nacional tornou-se um enorme campo de atuação para o Estado dentro da trama de modernização, pretendendo modificar as principais áreas da sociedade: no campo ampliado das artes, na administração pública, no direito, na indústria, na educação, entre outros. Concomitante às mudanças advindas com a queda da República Velha, havia uma concordância disseminada quanto a urgência de revisão no sistema político e social do país. Ainda que os grupos “revolucionários” formassem uma composição política heterogênea, o sentimento nacionalista inflamava as propostas de todos os lados políticos, fator que foi convenientemente abraçado pelo governo Vargas para implementar sua política que incluía a construção da identidade nacional, estrategicamente negociando com todos os grupos, colocando-se acima das diferenças e desta forma se equilibrando e angariando apoios diversos. Em que pese a estratégia de equilíbrio, o sentido estava dado, para Skidmore (1985), o Estado Novo demonstrou o avanço do conservadorismo, determinando uma “tutela autoritária” e nacionalista sobre os objetivos de bem- estar social, cultural e econômicos que vinham sendo debatidos desde início da década.

Como citar

SILVA, Jasmine Luiza Souza; BUZZAR, Miguel Antônio; FACHI, Fernanda Millan. Projeto de um país moderno: projetos escolares nas publicações internacionais de Arquitetura Moderna Brasileira. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 15., 2023, São Carlos. Anais [...]. São Carlos: IAU e FAU — Universidade de São Paulo, 2023. p. 1-15. ISBN 978-65-272-0196-0. DOI: 10.5281/zenodo.19069944.

Referências

  • ABREU, I. R. N. Convênio Escolar: Utopia Construída Convênio Escolar: Utopia Construída. [s.l.] Universidade de São Paulo, 2007.
  • AMARAL, A. Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930 - 1970. São Paulo: Studio Nobel, 2003.
  • AZEVEDO, M. N. S. de; SERRANO, Cinthia L. Patrimônio Modernista em Risco. O caso do Colégio Estadual Raul Vidal de Álvaro Vital Brazil. Uma questão de gestão pública ou de formação e/ou prática do arquiteto contemporâneo? Anais do 7º seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2007. BRITO; A. F. O.
  • BRUNA, P. Os primeiros arquitetos modernos. Habitação Social no Brasil 1930-1950. São Paulo: Edusp, 2015.
  • BUFFA, E.; PINTO, G. DE A. Arquitetura e educação: organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas. 1893/1971. São Carlos, SP: Edufscar, 2002.
  • COSTA, E. A. Fotografia de Arquitetura: a apropriação iconográfica do Brazil Builds na construção de um ideal moderno da arquitetura brasileira. XXIV Simpósio Nacional de História, p. 1–10, 2007.
  • COSTA, L. Razões da Nova Arquitetura. Arte em Revista, n.4. São Paulo: CEAC, 1980.
  • COSTA, L. Sobre Arquitetura. 1962. In: XAVIER, Alberto (org.). Depoimento de uma geração. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • ESPÍRITO SANTO (Estado). Arquitetura/ Patrimônio Cultural do Espírito Santo. Secretaria de Estado da Cultura. Conselho Estadual de Cultura – Vitória: SECULT, 2009.
  • FERRAZ, A. R. F. As pioneiras escolas modernas do SENAI e seus idealizadores. Anais do 5º Seminário
  • DOCOMOMO Brasil, São Carlos, SP, 2003. http://docomomo.org.br/wp-content/uploads/2016/01/026R.pdf
  • FERREIRA, A.; MELLO; M. G. de (Orgs.). Arquitetura Escolar paulista: Estruturas Pré-fabricadas. São Paulo: editora FDE, 2006.
  • GOODWIN, P. L. Brazil Builds. [s.l.] The Museum of Modern Art, 1943.
  • GORELIK, A. Das vanguardas a Brasília: cultura urbana e arquitetura na américa latina. Belo horizonte: UFMG, 2005.
  • GRINOVER, L. Problemas de aprendizagem industrial. Acrópole, São Paulo, n. 314, p.37-38, 1965.
  • HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. São Paulo: Paz e terra, 1990.
  • KOPP, A. Quando o moderno não era um estilo e sim uma causa. São Paulo SP, Nobel, 1990.
  • MARTINS, C. A. F. Arquitetura e Estado no Brasil: elementos para uma investigação sobre a constituição do discurso moderno no Brasil. 1988. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1988. Acesso em: 09 jun. 2023.
  • MARTINS, C. A. F. Identidade nacional e Estado no projeto modernista. Modernidade, Estado e Tradição [1992]. In: GUERRA, Abilio (Org.). Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira - Parte 1. Coleção RG bolso, volume 1. São Paulo, Romano Guerra, 2010.p. 279 -297.
  • MINDLIN, H. Modern Architecture in Brazil. São Paulo: Aeroplano, 1956. GOODWIN, 1943, p. 7).
  • SCHWARTZ, J. Vanguardas Latino-Americanas. SAO PAULO: ILUMINURAS, 1995. 640p
  • SEGAWA, H. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. São Paulo: Edusp, 2018.
  • SILVA, J. L. S. A Escola Paulista e a função social da arquitetura: projetos escolares entre 1959 e 1975. 2022. Dissertação (Mestrado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) - Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2022. doi:10.11606/D.102.2022.tde-19092022-152709. Acesso em: 2023-06-25.
  • SILVA, J. L. S; BUZZAR, M. A.; BERGANTIN, R. A construção historiográfica da arquitetura moderna brasileira e o Plano de Ação do Governo Do Estado. 2020. Anais VI Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós- Graduação em Arquitetura e Urbanismo, 1 a 5 de outubro – Brasília: FAU-UnB, 2021. p. 451- 471.
  • SKIDMORE, T. Brasil: de Getúlio a Castelo. 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
  • VEYNE, P. Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília: Editora UNB, 2008.
  • ZILIO, C. Da Antropofagia à Tropicalia. In: A querela do Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1982.

Ficha catalográfica

15º Seminário Docomomo Brasil: anais: Arquitetura e Urbanismo e a reconstrução do Estado e da sociedade [recurso eletrônico] / organização: Ivo Renato Giroto et al. São Carlos, SP: IAU e FAU — Universidade de São Paulo, 2023. Disponível em: www.even3.com.br/anais/xv-seminario-docomomo-brasil-2023. ISBN 978-65-272-0196-0. DOI: 10.29327/1344945