Entre a utopia e o estigma: releituras críticas da Arquitetura Moderna
Resumo
O artigo discute as leituras consolidadas de Jacobs e Jencks sobre os grandes conjuntos habitacionais, questionando a narrativa que associa seu fracasso à arquitetura e ao urbanismo do movimento moderno. Partindo da crítica pós-moderna difundida por estes autores na década de 1970 — simbolizada pela demolição do conjunto Pruitt-Igoe e pela ideia da “morte da arquitetura moderna” —, o texto apresenta os autores que revelaram outros aspectos da produção habitacional moderna, como Tafuri e Dal Co, Meehan e Fishman. Com base em pesquisas recentes de Kempen, o artigo argumenta que a crítica estilística ao modernismo, ao ganhar hegemonia, contribuiu para deslegitimar a habitação social como política pública e para justificar processos de demolição em massa, frequentemente associados à gentrificação e à retração do Estado do Bem-Estar Social, sobretudo no contexto europeu. A pesquisa europeia RESTATE, coordenada por Kempen, é mobilizada para demonstrar que os grandes conjuntos habitacionais modernos na Europa apresentam qualidades urbanas relevantes — como densidade, áreas livres, infraestrutura consolidada e boa articulação com o transporte coletivo — que os tornam estratégicos para agendas contemporâneas de sustentabilidade urbana. A demolição desses conjuntos, além de não resolver problemas sociais estruturais, reduziu significativamente a oferta de habitação acessível. No caso brasileiro, o artigo destaca a especificidade da política habitacional promovida entre 1939 e 1963, vinculada ao sistema previdenciário e à renda do trabalho. Embora não universal, essa política mostrou-se relativamente bem-sucedida ao garantir inclusão socioeconômica, estabilidade residencial e boa inserção urbana para trabalhadores formais, sem provocar, até os últimos registros de pesquisa, processos sistemáticos de deterioração ou de gentrificação comparáveis aos identificados nas cidades europeias. Ao comparar os contextos europeu e brasileiro, o artigo sustenta que o legado da arquitetura moderna deve ser reavaliado de forma menos ideológica, reconhecendo sua validade como referência para estratégias de reforma urbana sustentável no século XXI.
Palavras-chave
Como citar
KOURY, Ana Paula. Entre a utopia e o estigma: releituras críticas da Arquitetura Moderna. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
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