Havia gentileza no moderno? Edifícios e interrelações público-privadas

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Este artigo propõe uma abordagem analítica sobre a possibilidade de espacialidades gentis na arquitetura. Com enfoque na análise de três edificações verticais, projetadas entre as décadas de 1930 e 1960 na cidade de São Paulo: Edifício Esther, Edifício Louveira e Edifício Conjunto Nacional. Parte-se do pressuposto de que valores como abertura ao espaço público, promoção da vida urbana, acolhimento ao pedestre e mediação qualificada entre as esferas pública e privada já eram mobilizados por arquitetos modernos no contexto brasileiro, ainda que sob outros discursos e intenções. O conceito de edifício gentil, sistematizado por autores como Gabriela Tenório (2022), tem sido apropriado pelo mercado imobiliário como diferencial simbólico e reforçado por instrumentos legislativos como o Plano Diretor Estratégico de São Paulo (2014). Contudo, é possível traçar paralelos entre a noção contemporânea de gentilezas urbanas, e as estratégias adotadas em parte da produção arquitetônica moderna brasileira: seja na galeria interna do Esther, que cria uma passagem pública entre ruas; na implantação generosa do Louveira, que oferece parte do lote à cidade e estabelece uma transição sutil entre o público e o privado; ou mesmo na praça interna coberta do Conjunto Nacional, cuja marquise se projeta sobre as calçadas e acolhe diferentes fluxos urbanos. Argumenta-se que, nesses projetos, a gentileza decorre tanto do pensamento arquitetônico vigente, articulado a valores éticos, sociais e urbanos, quanto da intenção de qualificar a relação edifício–cidade. Ao historicizar o conceito de gentileza urbana, desloca-se seu uso de uma lógica mercadológica para o campo da reflexão arquitetônica orientada ao bem comum, como propõem Montaner e Muxi (2011) ao defender que a arquitetura deve assumir função política e fortalecer a cidadania e o espaço público. Assim, revisitar o legado moderno sob esse olhar contribui para uma base crítica mais consistente para pensar a noção de edifício gentil na contemporaneidade.

Palavras-chave

Como citar

AZEVEDO, Yan. Havia gentileza no moderno? Edifícios e interrelações público-privadas. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências

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