O elevador

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Partindo da presença inoperante dos elevadores do fictício Edifício das Américas, em Sábado (Ugo Giorgetti, 1995), este artigo desenvolve discussões que interessam à arquitetura e ao urbanismo diante da disputa em um centro ocupado por movimentos de moradia e pela especulação imobiliária. Analisa a potência simbólica do elevador como meio de transporte e, sobretudo, como espaço de supressão da experiência temporal e social. O enclausuramento involuntário e a convivência forçada são explorados a partir de autores como Paul Virilio (1980), Beatriz Colomina (1994), e Andreas Bernard (2014). O texto recupera a proposta de Rem Koolhaas para o Arte/Cidade (1999), que desnaturaliza a falta de elevadores em edifícios como o São Vito. Três décadas depois, a tensão se mantém, agravada pela lógica excludente do retrofit e da produção em massa de microapartamentos vendidos a fundos internacionais.

A crítica social é esboçada pelo humor na trama de Giorgetti. O filme contrasta o elevador “social”, cenário publicitário, ao elevador “de serviço”, que falha e aprisiona os moradores, explicitando a cisão de classes e os desdobramentos do processo de popularização das áreas centrais. Sábado explicita que onde há riqueza, a pobreza é considerada intrusa; onde há pobreza, a sensação vendida é a da insegurança. Entretanto, o texto lembra que os movimentos de moradia organizados, como a Ocupação 9 de Julho, apontam para possibilidades de reapropriação coletiva e ressignificação simbólica dos edifícios centrais, afirmando a convivência como necessária e possível. O elevador, tomado como protagonista narrativo e objeto arquitetônico, permite articular questões de mobilidade vertical, experiências temporais e fronteiras sociais, e reposicionar a discussão sobre habitação, desigualdade e urbanidade.

Palavras-chave

Como citar

BOGÉA, Marta; NOTO, Felipe de Souza. O elevador. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências

  • Araújo, Inácio. “‘Sábado’ observa contradições do Brasil”. Folha de S. Paulo, 7 de abril de 1995. Acesso em 8 de setembro de 2025. <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/4/07/ilustrada/17.html>
  • Benevolo, Leonardo. “História da arquitetura moderna”. São Paulo: Perspectiva, 1979.
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  • Colomina, Beatriz. “Privacy and Publicity: Modern Architecture as Mass Media”. Cambridge: MIT Press, 1994.
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  • Giorgetti, Ugo, dir. “Sábado”. São Paulo: Europa Home Vídeo, 1995.
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  • Lipai, Alexandre Emílio, e Ana Elena Salvi. “A cidade de São Paulo e o imaginário urbano: ficção e realidade no cinema de Ugo Giorgetti.” Arquitextos 9, nº 098.02 (julho 2008). Acesso em 11 de setembro de 2025. <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.098/125>
  • Virilio, Paul. “L’esthétique de la disparition”. Paris: Balland, 1980.