Lisboa, São Paulo: cartografias sensíveis e modernidade no cinema
Resumo
O artigo propõe uma análise comparativa entre Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, e São Paulo, Sociedade Anônima (1965), de Luís Sérgio Person, destacando o papel central da arquitetura e do espaço urbano na construção das narrativas fílmicas. Com base em autores como Giuliana Bruno, Jean-Claude Bernardet e Ignasi de Solà-Morales, parte-se da premissa de que a arquitetura transcende a função de cenário para atuar como agente narrativo, revelando como as paisagens de Lisboa e São Paulo moldam as trajetórias dos protagonistas e refletem as tensões entre modernidade e experiência humana. Em Os Verdes Anos, Lisboa é apresentada por planos que transitam do bucólico ao urbano, refletindo o estranhamento do jovem migrante diante de uma cidade em expansão, marcada pelo choque entre ruralidade e modernização. Júlio chega à capital pela estação ferroviária e vive o desajuste e a nostalgia de quem é lançado à metrópole. O bairro liminar entre campo e cidade onde se instala reflete seu desenraizamento. Em São Paulo, Sociedade Anônima, a metrópole industrial surge como território fragmentado, atravessado pelo rodoviarismo e pela lógica do capital. Carlos vive entre relações afetivas superficiais e a busca de ascensão social, num cotidiano pautado pela alienação e pela repetição. O filme emprega uma montagem não linear, associada à esquizofrenia narrativa, em que tempos distintos se confundem num eterno presente caótico. Em ambas as obras, a cidade atua como personagem ativa e, por vezes, opressora. Enquanto Carlos tenta recomeçar por meio da fuga, Júlio é tragado pelo destino trágico. A arquitetura emerge como espelho e catalisador das trajetórias individuais, condensando no espaço físico as dinâmicas de poder, as angústias pessoais e as ambiguidades da experiência coletiva das cidades.
Palavras-chave
Como citar
FONTENELLE, Romullo Baratto. Lisboa, São Paulo: cartografias sensíveis e modernidade no cinema. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
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