O drama do espaço moderno: diálogos entre "Medianeras" e "Aquarius"
Resumo
Assim como no cotidiano, em que muitas vezes a arquitetura passa despercebida como simples cenário, no cinema isso também ocorre. Em algumas obras, porém, ela assume o primeiro plano e se torna personagem principal, com narrativa, história e capacidade de produzir sensações. Os filmes Medianeiras: Buenos Aires na era do amor virtual (2011), de Gustavo Taretto, e Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, exemplificam quando a arquitetura deixa de ser pano de fundo e se converte em protagonista.
A análise parte da inquietação ao assistir Medianeiras e reconhecer paisagens comuns às cidades brasileiras: ruas longas, edifícios extensos e interiores apertados. A cidade de Buenos Aires, narrada por Martín e Mariana, é apresentada como fragmentada, verticalizada e caótica, tornando-se um agente simbólico que molda a subjetividade dos personagens. As medianeiras, tornam-se metáforas do isolamento, da incomunicabilidade e da falta de lugar. Como símbolo de resistência, passam a expor o tempo, a desconexão e até publicidade. Nesse ponto, articulam-se os conceitos de Guy Debord sobre a perda da experiência urbana e a psicogeografia como tentativa de conexão afetiva com a cidade.
No contexto brasileiro, Aquarius desloca o foco para o interior arquitetônico. O apartamento amplo, com grandes janelas voltadas ao mar, abriga Clara, que resiste à pressão de uma construtora para deixar o edifício dos anos 1950. Aqui, a arquitetura atua como guardiã da memória, dos afetos e da história. A escolha do edifício enquanto protagonista evidencia não apenas uma crítica ao mercado imobiliário, mas uma narrativa sobre pertencimento e resistência. Dialoga-se com Lucy Huskinson (2018), que entende os espaços como extensões da mente.
Apesar dos contextos distintos, ambos os filmes revelam como o espaço moderno expõe ou silencia temas como isolamento, memória e pertencimento. Entre Medianeiras e Aquarius, a arquitetura, mesmo imóvel, move a narrativa.
Palavras-chave
Como citar
BOFF, Natália Costa. O drama do espaço moderno: diálogos entre "Medianeras" e "Aquarius". In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
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- Debord, Guy. “Teoria da Deriva.” Internationale Situationniste (1958). Transcrição Fernando Araújo. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/debord/1958/12/90.htm?utm_source> Acesso 13 de setembro de 2025.
- Huskinson, Lucy. Arquitetura e Psique: Um estudo psicanalítico de como os edifícios impactam nossas vidas. Trad. Margarida Goldstajn- 1ª ed. São Paulo: Perspectiva. 2021
- Velloso, Rita de Cássia Lucena. “Cotidiano Selvagem: Arquitetura na Internationale Situationniste.” Arquitextos, Vitruvius, nº 027.03 (ago. 2002). Acesso em 11 set. 2025. <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.027/758>

