Teatro Oficina: patrimônio vivo e resistência urbana
Resumo
O debate contemporâneo sobre a preservação da arquitetura evidencia o conflito entre memória e mercadoria. Henri-Pierre Jeudy, em A Maquinaria Patrimonial (2005), faz uma crítica à “museificação ubana”, processo que transforma as cidades em vitrines turísticas homogeneizadas, desvinculadas de suas práticas socioculturais. Segundo o autor, esse fenômeno está frequentemente vinculado à estratégias de revitalização urbana que visam inserir centros históricos em circuitos globais de turismo, adotando abordagens genéricas e espetaculares, esvaziando os territórios de suas especificidades culturais. Em contraposição a esses processos, a trajetória do Teatro Oficina constitui um exemplo paradigmático de patrimônio em constante reinvenção e resistência à lógica da petrificação. Envolvido há quase quatro décadas em uma disputa territorial com o Grupo Silvio Santos pelo terreno adjacente à sua sede, no Bixiga, em São Paulo, a companhia converteu esse conflito em uma performance política, na qual a teatralidade torna-se ferramenta de visibilidade e resistência. Nesse contexto, arte, arquitetura e ação política, articulam-se na defesa do espaço indissociável de sua identidade cultural e simbólica. O tombamento do Teatro Oficina nas esferas, estadual (CONDEPHAAT, 1982), federal (IPHAN, 2010) e municipal (COMPRESP), constitui um instrumento de resistência que ultrapassa a conservação material, reconhecendo o valor simbólico de sua trajetória. O artigo discute esse processo de tombamento, que, de forma atípica, permitiu transformações contínuas, sem impor o congelamento formal da arquitetura, valorizando a prática teatral como dimensão central do patrimônio. Apresenta ainda, uma leitura preliminar do projeto desenvolvido por Lina Bo Bardi e Edson Elito, destacando critérios de concepção que rompem com a lógica do teatro convencional e propõem uma arquitetura permeável, resistente à clausura e à verticalização impostas pela especulação imobiliária. A principal contribuição deste estudo é demonstrar que o Oficina transcende a lógica da conservação física, configurando-se como manifestação artística e política, e evidenciando o patrimônio moderno como agente de resistência cultural.
Palavras-chave
Como citar
RODRIGUES KUHL, Malu; ALVES, André Augusto de Almeida. Teatro Oficina: patrimônio vivo e resistência urbana. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
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