MAM e o Paraíso em três escalas: Palmeira, Pão de Açúcar e aterro
Resumo
Signos de um paraíso reencontrado foram identificados na paisagem do Rio de Janeiro desde a chegada dos colonizadores. Afinal, o jardim paradisíaco que serviu de morada para Adão e Eva foi frequentemente representado pela cultura europeia com floras exuberantes, grandes montanhas e águas cristalinas — aspectos vinculados ao cenário encontrado na Baía de Guanabara. Portanto, não é novo que uma forma de analisar a história da arquitetura produzida nesse território é justamente pelo percurso do conflito entre ser humano e natureza, entre artifício e paraíso. Assim, a relação entre arquitetura e natureza se estabeleceu em tensão desde a colonização: construir no que se imaginou ser o Éden redescoberto se mostrava ora inteiramente desnecessário, ora humanamente indispensável. Uma posição intermediária, porém, parece ter sido possível: a convivência entre a imagem do paraíso e a necessidade de ocupação humana. Com base nesse panorama, o trabalho pretende lançar luz sobre uma forma de pensar a relação entre arquitetura moderna e natureza no Rio de Janeiro: a artificialização de signos do paraíso. Como expressão emblemática desse processo, analisa-se o projeto do Museu de Arte Moderna (MAM), concebido por Affonso Reidy, Carmen Portinho e Roberto Burle Marx por volta de 1953. Fundamentada em fotografias e desenhos que evidenciam o diálogo entre natureza, cidade e ser humano, a aproximação ao projeto se dá por três escalas que remetem ao paraíso artificializado: as palmeiras — o elemento arquitetônico; o Pão de Açúcar — a paisagem enquadrada; e o Aterro do Flamengo — a integração entre corpo, artifício e natureza. Conclui-se que, quando explorada pelo Movimento Moderno, as visões do paraíso que permeiam a tradição arquitetônica brasileira foram atualizadas, o que resultou em formas mais potentes de articulação com a natureza e, sobretudo, na vontade de confiar em utopias.
Palavras-chave
Como citar
RUSCHEL, Augusto; POLIZZO, Ana Paula. MAM e o Paraíso em três escalas: Palmeira, Pão de Açúcar e aterro. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
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