Do colonial ao moderno: permanências luso-brasileiras na Arquitetura tropical brasileira

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

O artigo propõe uma revisão crítica da história da arquitetura moderna brasileira a partir das permanências formais, simbólicas e construtivas herdadas da tradição luso-brasileira e da cultura arquitetônica dos trópicos. Com base nos estudos de Dora Alcântara, argumenta-se que a modernidade no Brasil não se constitui como ruptura em relação ao passado colonial, mas como síntese criativa de temporalidades, na qual matrizes vernáculas e dispositivos ambientais são reconfigurados como fundamentos operativos do moderno. Contrapondo-se à historiografia tradicional, marcada pelo paradigma da ruptura e pela leitura eurocêntrica do Movimento Moderno, o texto demonstra que elementos como galerias sombreadas, arcos plenos, beirais largos, colunatas, varandas e dispositivos de ventilação passiva formam uma genealogia técnica e simbólica que atravessa da arquitetura colonial às obras paradigmáticas do século XX. Análises de edifícios como o Palácio Gustavo Capanema, o Palácio do Planalto, o Itamaraty e o Alvorada revelam como pilotis, brises-soleil, plantas livres e a integração das artes foram reinterpretados a partir de referências coloniais, rurais e vernáculas, configurando uma modernidade tropical mestiça, crítica e enraizada no território. A reflexão aproxima as proposições de Dora Alcântara das teorias de Riegl, Choay, Lúcio Costa, Paulo Santos e Gottfried Semper, destacando o valor epistemológico das permanências e sua função como operadores projetuais. Ao recuperar paralelos entre fazendas coloniais, sobrados maranhenses, palheiros portugueses, engenhos nordestinos e palácios modernos, evidencia-se um campo de continuidade cultural que desafia a narrativa linear e homogênea da modernidade. O artigo conclui que descolonizar a história da arquitetura moderna implica reconhecer a tropicalidade como matriz de invenção, e não como adaptação periférica. Preservar a arquitetura moderna brasileira exige, portanto, preservar também seus fundamentos históricos, ambientais e simbólicos, raízes vivas que sustentam a singularidade de uma modernidade situada, mestiça e profundamente vinculada ao território.

Palavras-chave

Como citar

BARRADAS-FERNANDES, Noemia Barradas. Do colonial ao moderno: permanências luso-brasileiras na Arquitetura tropical brasileira. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências

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