Fôrmas e formas: transformações na obra de Vilanova Artigas

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

O trabalho analisa a relação entre estrutura e elementos não estruturais — como paginações de fôrmas e pinturas — na produção de Vilanova Artigas entre o final dos anos 1950 e início dos 1960, período de transições em sua prática projetual. Busca-se mostrar como componentes considerados secundários mobilizam questões temporais, políticas e culturais, revelando tensões inerentes ao processo de concepção e execução. A discussão ganha relevância ao compreender a arquitetura como resultado direto da ordenação material e das decisões que organizam a construção. Na arquitetura moderna brasileira, especialmente na obra de Artigas, a estrutura atua como matriz geradora do espaço e da expressão plástica. Embora haja tendência de simplificação, o protagonismo estrutural não esgota a compreensão desses edifícios. Nos projetos do período, observa-se interesse crescente pela superfície construída como campo de operação estética, no qual fôrmas, juntas e cromatismos articulam a linguagem. Artigas experimenta soluções diversas para o concreto aparente: tábuas verticais na Casa Olga Baeta; murais geométricos na Casa Rubens de Mendonça; o relevo de concreto da fachada do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Fiação e Tecelagem; no elaborado uso das cores nos ginásios de Itanhaém. Essas obras evidenciam o potencial expressivo da construção, que ultrapassa a dimensão estrutural e envolve a lógica de montagem. A atenção às fôrmas, suas orientações e texturas, às pinturas que destacam apoios e às decisões sobre juntas e módulos mostra que esses elementos têm papel essencial na materialidade e na percepção das obras. Mesmo subordinados à estrutura, adquirem função estruturante no plano semântico: modulam a experiência, revelam o processo construtivo e atualizam criticamente a noção de arquitetura moderna. Ao explorar superfícies, cores e marcas construtivas como componentes expressivos, Artigas transforma o ato de montar em linguagem arquitetônica, reforçando o interesse contemporâneo de sua obra. Tomitão Adriano Canas e Maria Eliza Alves Guerra A proposta deste trabalho é desenvolver uma primeira análise do Centro Municipal de Cultura de Uberlândia, novo equipamento cultural instalado no edifício que abrigou por quarenta anos o Fórum de Justiça Abelardo Penna, exemplar da arquitetura brutalista localizado no centro da cidade. Projetado pelos arquitetos mineiros José Carlos Leander de Castro e Roberto Pinto Manata, o edifício (1972–1977) foi integrado ao projeto do Centro Cívico de Uberlândia (1973–1976), elaborado pelo escritório do arquiteto Ary Garcia Roza, com paisagismo de Roberto Burle Marx. O projeto previa uma ampla praça que reuniria edifícios político-administrativos e equipamentos culturais e de lazer no antigo leito ferroviário da Companhia Mogiana, desativado nos anos 1970. Contudo, apenas a Praça Sérgio Pacheco e o fórum foram construídos, e reformulações posteriores, decorrentes de alternância política, fragmentaram e descaracterizaram a praça, isolando o edifício, cuja arquitetura se destaca pelo partido e pelo uso do concreto aparente pouco comuns no Triângulo Mineiro. O edifício funcionou como fórum por quatro décadas e recebeu intervenções que resultaram em descaracterizações, como a perda da pavimentação idealizada por Burle Marx e o cercamento do entorno. Após a transferência das atividades judiciais para nova sede, o edifício passou por um período de incertezas quanto ao destino e ao risco de descaracterização. Em 2018, foi cedido ao município para uso cultural e recebeu adaptações para abrigar programas como a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, a Biblioteca Municipal e a Banda Municipal, além do arquivo do judiciário, ainda presente. Inaugurado em 2020 como Centro Municipal de Cultura, o equipamento completa cinco anos, permitindo avaliar sua adaptação ao novo uso. Entretanto, o isolamento provocado pelo cercamento e a ocupação do térreo por estacionamento evidenciam a necessidade de repensar a relação entre a intervenção atual, o potencial arquitetônico e uma integração mais efetiva com a cidade.

Palavras-chave

Como citar

MORENO, Guilherme Pianca. Fôrmas e formas: transformações na obra de Vilanova Artigas. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

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