Tribunas do moderno: imprensa e Arquitetura no Brasil (1920–1950)

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

A inexistência de uma imprensa especializada em arquitetura no Brasil até meados do século XX fez com que jornais de grande circulação assumissem papel central na formulação, disputa e difusão da arquitetura moderna. Este artigo investiga como periódicos como o Correio da Manhã (Rio de Janeiro) e o Correio Paulistano (São Paulo), entre as décadas de 1920 e 1950, não apenas refletiram debates arquitetônicos, mas atuaram como agentes ativos na construção de um imaginário moderno. Parte-se da hipótese de que a imprensa não especializada deve ser compreendida como personagem da história da arquitetura moderna, contribuindo para a formação de léxicos, a legitimação profissional dos arquitetos e a consolidação de valores urbanos, culturais e identitários. O recorte temporal permite identificar três momentos distintos. Nos anos 1920, observa-se o uso precoce e publicitário do termo “moderno” em anúncios imobiliários, associado a ideias de conforto, higiene e distinção social. A partir de 1925, esse uso passa a ser tensionado por arquitetos como Rino Levi e Gregori Warchavchik, que utilizaram os jornais como espaço de manifesto, defendendo a racionalidade construtiva e a depuração formal. Nos anos 1930, a imprensa se consolida como instrumento pedagógico, sobretudo por meio de colunas voltadas ao público leigo, nas quais princípios modernos foram traduzidos em linguagem acessível, contribuindo para a formação de gosto e hábitos cotidianos. Entre 1936 e 1950, a arquitetura moderna passa a integrar pautas urbanas e políticas, como habitação popular, concursos e planos urbanísticos, reforçando o papel dos jornais como mediadores entre arquitetos, Estado e sociedade. Metodologicamente, o estudo articula levantamento sistemático em hemerotecas digitais, análise discursiva dos textos e leitura comparativa entre as praças editoriais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os resultados indicam que a imprensa foi decisiva para a consolidação do moderno como projeto cultural e urbano no Brasil. Assim, demonstra-se que a arquitetura moderna não se constituiu apenas por meio de obras construídas, mas também através das palavras impressas, fazendo dos jornais arenas fundamentais de produção e circulação da modernidade arquitetônica brasileira.

Palavras-chave

Como citar

TRAJANO FILHO, Francisco Sales; GONÇALVES, Monaliza Cristina. Tribunas do moderno: imprensa e Arquitetura no Brasil (1920–1950). In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

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