Imaginários e desvios: possibilidades para o ensino moderno

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Este trabalho propõe a interlocução entre os estudos do imaginário e o método situacionista do desvio (détournement) como caminho para repensar o ensino de arquiteturas modernas na contemporaneidade. Busca-se romper a reprodução de paradigmas cristalizados e convocar práticas pedagógicas capazes de ampliar o repertório formativo, favorecendo abordagens mais contextualizadas e alinhadas às emergências epistemológicas atuais.

A tradição moderna, mesmo com sua vocação inicial de ruptura, acabou por consolidar narrativas técnico-formalistas hegemônicas, que sustentaram, dentre muitas coisas, a separação entre razão e imaginação. Essa cisão reforçou uma desconfiança histórica do papel da imagem e da percepção na formação arquitetônica. Restituir seu valor cognitivo implica reconhecer a imaginação como força criadora que inscreve a arquitetura para além da abstração, constituindo-a como prática crítica mediada por sistemas simbólicos.

Nesse contexto, o desvio desponta como estratégia pedagógica capaz de romper com a repetição acrítica e ativar novos regimes de sentido. Por meio de recombinações e deslocamentos, desestabiliza leituras fixas e evidencia tensões inerentes à modernidade arquitetônica. Para ilustrar essa abordagem, o artigo apresenta a atividade “MASP: narrativas e contranarrativas”, desenvolvida pelo Grupo Desvios, coletivo independente de práticas pedagógicas e processos criativos no campo ampliado da arquitetura. A partir de textos disparadores e de uma cartografia colaborativa, os participantes reconfiguraram materiais sobre o MASP, desfazendo sua imagem de ícone e reconhecendo-o como corpo social atravessado por disputas simbólicas.

O processo evidenciou a potência formativa da imaginação ao articular crítica, criação e implicação política, abrindo caminhos para um ensino de arquitetura sensível, experimental e continuamente reinventado. Ao reinterpretar uma obra central do modernismo brasileiro sob a ótica do imaginário e do desvio, a experiência reafirma a imaginação como força ontológica, capaz de desestabilizar regimes perceptivos hegemônicos e de instaurar outros modos de compreender e intervir no mundo.

Palavras-chave

Como citar

LACERDA, Marina Pedreira de. Imaginários e desvios: possibilidades para o ensino moderno. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências

  • Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.
  • Barthes, Roland. Aula. São Paulo: Ed. Cultrix, 1980.
  • Castilho, Amanda; Gobatto, Rodrigo; Lacerda, Marina Pedreira de. Grupo Desvios: sistematização da experimentação pedagógica. 18º Congresso Brasileiro de Sistemas, UFMG, 2023, p. 1-19.
  • Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
  • Castro, Laura Fonseca de. Deslegitimizar, atualizar, vulgarizar: o desvio como método de transformação material, narrativa e performática de espacialidades urbanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2021.
  • Colomina, Beatriz; Galán, Ignacio G.; Kotsioris, Evangelos; Meister, Anna-Maria (Orgs.). Radical Pedagogies. Cambridge (MA): The MIT Press, 2022.
  • Debord, Guy-Ernest; Wolman, Gil J. “Mode d’emploi du détournement” Inter, n.117, p. 23-26, 2014. Acesso em 21 de setembro de 2025: <https://www.erudit.org/fr/revues/inter/2014-n117-inter01492/72291ac.pdf>
  • Durand, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
  • Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
  • Jacques, Paola Berenstein. Apologia da deriva: escritos Situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
  • Lacerda, Marina Pedreira de; Constantino, Victor. A construção de comunidades pedagógicas: a experiência do Grupo Desvios. VII ENANPARQ – Refazer, Restaurar, Revisar, USP São Carlos, 2022, v. 4, p. 829-843.
  • Lara, Fernando Luiz. “Paulo Freire como antídoto à hegemonia da abstração” Vitruvius – Arquitextos, nº 256.00, ano 22 (set. 2021). Acesso em 21 de setembro de 2025: <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.256/8240>
  • Pisani, Daniele. “MASP: breve história de um mito,” Revista Projeto, nº 439 (set./out. 2017): 148-155.
  • Rozestraten, Artur Simões. Representações: Imaginário e Tecnologia. São Paulo: FAU-USP, 2017.
  • Teixeira, Maria Cecília Sanchez. “A contribuição da obra de Gilbert Durand para a Educação,” Em 100 anos Gilbert Durand, ed. Iduina Mont’Alverne Braun Chaves; Rogério de Almeida, 48-63. São Paulo: FEUSP, 2022. Vergès, Françoise. “Museum Without Objects” em The Postcolonial Museum: The Arts of Memory and the Pressures of History, ed. Iain Chambers, Alessandra De Angelis, Celeste Ianniciello, Mariangela Orabona, 25-38. Londres: Routledge, 2014.