Devorando “taperinhas” e “máquinas de morar” nos anos 1920
Resumo
Um dos aspectos fundamentais da antropofagia moderna brasileira é sua capacidade de devorar formal e tematicamente as contribuições do colonizador e do colonizado. Se, por um lado, os modernistas brasileiros são informados pela experiência com as vanguardas europeias, por outro, o primitivismo de muitas delas apresenta um caminho para a “redescoberta” de outros tempos de sua própria terra. Um exemplo paradigmático é a casa projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik para sua própria residência: inaugurada dois meses antes do Manifesto Antropófago, a residência chamou atenção da crítica da época que destacou a virtude do arquiteto em extrair o essencial tanto do que estava sendo produzido na Europa, quanto do que já havia sido produzido em tempos coloniais em território nacional. Contudo, tal proeza em articular o que havia de novo com o que havia de antigo não era exatamente uma novidade: na Semana de Arte Moderna, o arquiteto Georg Przyrembel havia experimentado revisitar a arquitetura colonial, enquanto Antonio Moya se inspirou em referências pré-coloniais, ambos no esforço de pensar uma arquitetura de seu tempo. Ao que tudo indica, a antropofagia parece ter aprendido com a arquitetura e o neocolonial teria sido uma primeira tentativa de “devorar” o colonial e o pré-colonial. O presente artigo investiga possíveis continuidades e descontinuidades antropofágicas entre estes dois momentos por meio das intervenções de Mário de Andrade e Oswald de Andrade em ambos os movimentos, buscando compreender em que medida a antropofagia arquitetônica modernista (ou da “máquina de morar”) se diferencia da antropofagia “avant la lettre” do neocolonial (ou da “taperinha” de um Przyrembel).
Palavras-chave
Como citar
MATOS, Alex de Carvalho. Devorando “taperinhas” e “máquinas de morar” nos anos 1920. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
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