A Taba contemporânea de Brasília: uma exposição de Lucio Costa (1962-1963)
Resumo
Propomos uma arqueologia crítica das exposições, focando na mostra não realizada L’art au Brésil: la taba contemporaine de Brasília, concebida por Lucio Costa (1962-1963) para o Petit Palais, em Paris. Preservada em seu espólio, a proposta expográfica permite pensar as exposições como campo de montagem e fricção anacrônicos, relevantes para a historiografia da arquitetura e do urbanismo modernos no Brasil. A hipótese central é que a noção de “contiguidades insólitas”, formulada por Costa no roteiro curatorial, opera como um princípio constitutivo do seu modo de pensar e projetar. O roteiro aproximava expressões heterogêneas, instaurando justaposições que suspendiam o tempo linear e abriam brechas para a constituição mítica. A exposição começaria com uma maloca do Alto Xingu, levando à construção de Brasília, e se desdobraria por afinidades de intenção, opostas à linearidade cronológica. Diferentemente da exposição “Brazil Builds: Architecture New and Old 1652–1942”, que foi muitas vezes interpretada como a legitimação da arquitetura moderna por uma síntese estilística moderno-colonial, “A taba contemporânea de Brasília” nos oferece interpretações mais complexas, deslocando tais sínteses ao operar por vizinhanças inesperadas e disjunções deliberadas. Propomos interpelar o gesto curatorial de Costa sob a ótica da antropofagia oswaldiana: como metáfora, uma operação crítica de ingestão e confronto, assimilando formas e conhecimentos de origens variadas. Essa lógica se relacionaria ao hasard objectif surrealista, onde encontros de disparidades revelam afinidades latentes. Em vez de um progresso civilizatório, Costa tensiona tradição e modernidade, vernacular e erudito. Diante de Brasília, a maloca é uma presença sintomática, uma imagem dialética EXCURSOS que irrompe no presente. Sua expografia é assim uma prática de montagens anacrônicas, onde convivem ruína e projeto, mito e matéria. A exposição interrompida emerge como figura desse campo movediço, em que o inacabado e o tempo operam como materiais, iluminando o que ainda está por vir.
Como citar
ALMEIDA JÚNIOR, Dilton Lopes de. A Taba contemporânea de Brasília: uma exposição de Lucio Costa (1962-1963). In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

