Decoro e dissonância: interiores reformados em casas de Niemeyer

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Entre os compromissos do movimento moderno no campo da arquitetura, esteve o de promover a depuração dos espaços domésticos diante do cenário de excessos ornamentais, falsificações e pastiches que marcaram o século XIX. A crítica à impureza estética daquele período se traduziu, na modernidade, pela busca de coerência formal, honestidade material e racionalidade compositiva, princípios que não se limitavam à volumetria das edificações, mas se estendiam aos interiores e à vida cotidiana ali projetada. Ainda assim, como aponta o texto de chamada desta sessão, mesmo os interiores das casas modernas mais emblemáticas não estiveram livres de misturas, interferências e apropriações que tensionam a ideia de pureza. Neste contexto, este trabalho propõe refletir sobre a ambientação de interiores em duas residências projetadas por Oscar Niemeyer nas décadas de 1950 e 1960 e reformadas na última década para novos usos domésticos. A primeira, situada em São José dos Campos (SP) e parte do Centro Técnico de Aeronáutica, passou por uma intervenção que se propôs a preservar os elementos originais da casa. A segunda, localizada no Rio de Janeiro e atualmente habitada pela artista plástica Adriana Varejão, foi reformada com alterações significativas, incorporando ampliações da construção e novas materialidades. Entende-se que reformar não constitui um desvio ou um problema: ao contrário, é um gesto legítimo diante do envelhecimento físico das construções e da necessidade de adaptação aos modos de habitar contemporâneos. No entanto, a forma como essa reforma se manifesta nos interiores — seja por meio da seleção de materiais, da disposição de mobiliário ou da inserção de objetos — pode contribuir ou não para a manutenção da coerência projetual. Neste sentido, o estudo busca deslocar o foco da dicotomia entre preservar ou modificar e, em seu lugar, observar o grau de pertinência e decoro das ambientações produzidas. O caso da residência em São José dos Campos apresenta escolhas interessantes nesse sentido. Apesar da preservação de elementos como o piso de tacos de peroba rosa e os caixilhos metálicos, a ambientação interior se faz por meio de móveis contemporâneos produzidos em MDF com acabamento que imita madeira natural. Essa decisão, ainda que funcional, em alguma medida pode evocar a prática de simulação criticada pelos modernos, instaurando uma tensão entre aparência e materialidade. Em contraponto, a casa de Adriana Varejão, embora tenha passado por intervenções mais amplas, adota novos materiais de forte presença física e elementos que, mesmo não originais, mantêm um nível de sofisticação e expressividade coerente com os princípios da arquitetura moderna. Importa destacar que esta análise não busca estabelecer julgamentos definitivos sobre qual intervenção seria mais ou menos adequada, mas sim abrir espaço para uma leitura crítica das decisões de projeto e ambientação, com base em seus efeitos sobre a integridade conceitual da arquitetura. Para isso, o artigo foi desenvolvido a partir de revisões bibliográficas sobre os interiores modernos e as práticas contemporâneas de reforma, além de análise crítica dos dois casos estudados à luz dos conceitos clássicos de decoro e pertinência. Recuperado de Vitruvius, o conceito de decoro pode ser compreendido como a harmonia entre a finalidade, o caráter e a expressão formal da obra. No campo da arquitetura moderna, pode ser reinterpretado como a correspondência entre linguagem, materialidade e modo de uso — critérios fundamentais para avaliar a coerência das intervenções no espaço doméstico. Por fim, este trabalho busca contribuir para o debate sobre os interiores modernos como campo de disputa entre permanência e transformação. Em vez de tomar a pureza como um valor absoluto ou perdido, propõe-se observar suas inflexões e contradições à luz do tempo, da cultura material e das formas contemporâneas de morar. A ambientação é aqui tomada como lente para compreender as continuidades e rupturas do projeto moderno em suas reinterpretações presentes.

Palavras-chave

Como citar

LUZ, Marina Schuler Bonzanini da. Decoro e dissonância: interiores reformados em casas de Niemeyer. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências