Contaminações cruzadas: tradição e modernidade em casas de veraneio brasileiras dos anos 1970

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Impulsionado pelo desenvolvimento da indústria automobilística e pela expansão da classe média, o fenômeno da segunda residência no Brasil se consolidou a partir da década de 1950. Motivadas pela busca por um refúgio da agitação urbana e um retorno idealizado à simplicidade da vida no campo ou na praia, essas residências se tornaram um importante campo de experimentação para arquitetos modernos. Longe da ortodoxia purista dos centros urbanos, a arquitetura de veraneio permitiu um diálogo entre modernidade e tradição, resultando em projetos que incorporam elementos vernaculares e regionais. O artigo analisa casas de veraneio projetadas pelos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Villanova Artigas na década de 1970, mostrando que, mesmo entre os arquitetos mais fiéis aos princípios modernistas, existiu este tensionamento. Nas casas apresentadas são adotadas soluções típicas do léxico tradicional, como os telhados em águas, estruturas em madeira rústica e tijolos à vista. Discute-se, ainda, o quanto tais escolhas são opções deliberadas e conscientes e, não apenas respostas pragmáticas a possíveis dificuldades construtivas relacionadas ao transporte de materiais e/ou escassez de mão de obra especializada. À análise, tais decisões parecem mais fortemente relacionadas à incorporação de vieses simbólicos e culturais, reforçando a identidade regional e um sentimento de pertencimento ao lugar. Essa postura expressa a intenção de criar uma arquitetura que fosse reconhecível, acolhedora e conectada às raízes culturais locais, na contramão do que era esperado a partir das imposições de uma modernidade universalizante e muitas vezes impessoal. O artigo busca investigar, ainda, o quanto esta abordagem, para além de também configurar-se como um espaço de experimentação formal e tectônica, impacta na domesticidade insinuada pelos espaços projetados, em que a arquitetura se permite ser menos protagonista, cedendo lugar a uma experiência mais afetiva e simbólica do lugar, reforçando sentimentos de pertencimento e nostalgia. No que é possível inferir da análise estas residências de veraneio, existe uma relação multifacetada entre modernidade e tradição, traduzindo uma busca por autenticidade, identidade regional e conexão com o passado. Essas residências não se limitam à função de refúgios temporários, mas se configuram como manifestações culturais, carregadas de simbolismo, sentimento de pertencimento e resistência às pressões da homogeneização arquitetônica.

Palavras-chave

Como citar

BENTES, Dely. Contaminações cruzadas: tradição e modernidade em casas de veraneio brasileiras dos anos 1970. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

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