A mão e sua impressão
Resumo
No final dos anos 1920, confrontavam-se no Rio de Janeiro duas visões do urbanismo e da cidade, ilustrando os dois paradigmas modernos que coexistiam à época. O Plano Agache de 1928-1930 e a proposta de Le Corbusier para o Rio de Janeiro em 1929 não são apenas “projetos” distintos, mas estratégias e procedimentos frente à cidade e à natureza com divergências fundamentais. Além da dicotomia entre o Agache “acadêmico” e Le Corbusier “moderno”, os projetos apresentam similaridades perturbadoras na leitura da topografia carioca e no uso da mesma metáfora da mão aberta, com diferenças evidentes. Um é o exato oposto do outro, molde e moldado, a mão e sua impressão, numa quase homotetia; a Agache o que importa é a cidade existente, a ser remodelada, e a Le Corbusier a natureza, sobre a qual dispõe suas megaestruturas. Nos anos 40 Arnaldo Gladosch, que trabalhou com Agache no Plano do Rio, e Jorge Moreira, que conviveu com Le Corbusier no projeto do MES, confrontam-se em propostas para o Centro Cívico de Porto Alegre na Praça da Matriz com as mesmas divergências. Gladosch apresentou sua proposta em 1939, e o projeto detalhado em 1943, pelas datas dos desenhos em Um Plano de Urbanização. Jorge Moreira apresentou sua proposta para o Centro Cívico em 1943, em dois estudos ilustrados por quatro figuras no livro sobre sua obra organizado por Jorge Czajkowski. As propostas de Gladosch e Moreira para o Centro Cívico da Praça da Matriz não exibem a homotetia quase absoluta da relação entre Agache e Le Corbusier, nem representam tão literalmente a analogia da mão e sua impressão, mas exemplificam os dois paradigmas urbanísticos lutando por hegemonia nos anos 40. Ambos se comprometem com o moderno, ainda que de formas distintas, ilustrando duas ideias de cidade quase opostas em convivência forçada e permeada de conflitos desde então.
Palavras-chave
Como citar
ABREU FILHO, Silvio Belmonte de. A mão e sua impressão. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
- Renato Fiori, “O espaço da Praça da Matriz com a inserção do Palácio Piratini”, ARQtexto, nº 5 (2004), 98-109.

