Fotografia do invisível: dimensão projetual revelada de Brasília
Resumo
O convite da embaixada brasileira na Croácia para participar do Oris Days, em Zagreb, pelos 50 anos de Brasília, motivou a criação de uma exposição fotográfica que apresentasse a capital para além de suas imagens icônicas. Desde sua construção, Brasília foi amplamente fotografada para divulgar o projeto modernista, o que reforçou a necessidade de buscar novos enquadramentos. Com apoio de uma arquiteta do governo federal, foi possível acessar áreas pouco conhecidas ligadas ao funcionamento dos edifícios públicos — como o drive-thru do Ministério da Justiça, as vias N2 e S2 com seus anexos ocultos, os subsolos da Catedral e as conexões subterrâneas do Congresso — além de observar de perto as superquadras, revelando relações complexas com a topografia frequentemente considerada plana. A coincidência da ida à Croácia com a Bienal de Arquitetura de Veneza, cujo tema era People Meet in Architecture, reforçou uma crítica à hegemonia da imagem na arquitetura. A curadoria de Kazuo Sejima enfatizava uma experiência sensorial ampliada, dialogando com abordagens de jovens arquitetos japoneses, como o Atelier Bow-Wow e Kengo Kuma, que buscavam superar a leitura meramente visual e valorizar a inteligência espacial de estruturas aparentemente banais. Nesse contexto, a expografia brasileira na Bienal mostrou-se ainda presa à iconografia tradicional, recorrendo a imagens amplamente conhecidas e a maquetes que simplificavam o sofisticado trabalho topográfico de Brasília, reforçando críticas históricas ao modernismo. A incursão fotográfica resultou em três anos de oficinas na FAU-UnB, onde docentes já questionavam a rejeição persistente aos princípios urbanísticos modernos e exploravam a urbanidade da cidade não-compacta. Nessas oficinas, a fotografia foi usada como instrumento para desconstruir preconceitos, fundamentando a pesquisa que culminou no livro Cidade pós-compacta (2021). A obra defende a revisão da cultura visual que reduz a arquitetura a objeto, argumentando que, em Brasília, as imagens consagradas mostram apenas a superfície de uma complexidade espacial muito mais profunda.
Palavras-chave
Como citar
LASSANCE, Guilherme. Fotografia do invisível: dimensão projetual revelada de Brasília. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
- Holston, James. The Modernist City. An Anthropological Critique of Brasilia. Chicago: University of Chicago Press, 1989.
- Kuma, Kengo. Anti-Object: The Dissolution and Disintegration of Architecture. Londres: AA Words, 2008.
- Lassance, Guilherme; Varella, Pedro e Capillé, Cauê. Rio Metropolitano: guia para uma arquitetura. Rio de Janeiro: Rio Books, 2012.
- Lassance, Guilherme; Saboia, Luciana; Pescatori, Carolina e Capillé, Cauê. Cidade pós-compacta: estratégias de projeto a partir de Brasília. Rio de Janeiro: Rio Books, 2021.
- Rowe, Colin e Koetter, Fred. Collage city. Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1978.
- Kaijima, Momoyo; Kuroda, Junzo e Tsukamoto, Yoshiharu. Made in Tokyo. Tóquio: Kajima Institute Publishing, 2001.

