Um teatro do avesso: Athos Bulcão e o relevo do Teatro Nacional
Resumo
O presente artigo tem como objetivo explorar o relevo O Sol faz a festa, de Athos Bulcão para o Teatro Nacional de Brasília (1958), a partir de uma leitura subjetiva e teatral. As obras de Bulcão estão presentes em diversos edifícios de Oscar Niemeyer para a capital do país, mas o relevo de 1966 destaca-se por sua escala monumental, formado por duas grandes fachadas, quase sem aberturas, com blocos de concreto que variam de tamanho e ritmo e voltam-se para a cidade. A forma de tronco de pirâmide desenhada por Niemeyer para o edifício resulta em firmeza e robustez. Niemeyer desejava introduzir leveza à composição através da intervenção de Bulcão. Ao escolher realizar a obra de arte com blocos, o artista criou um jogo de luz e sombra, a maneira de Le Corbusier; com volumes dispostos sob a luz. As duas grandes fachadas tornam-se, então, planos ativos e o teatro vira do avesso, transformando a cidade em palco e plateia, simultaneamente. Diferente dos tradicionais painéis cênicos do Renascimento, bidimensionais e pintados, O Sol faz a festa funciona como um plano tridimensional e interativo, manipulado tanto pelo sol quanto pelos corpos que se aproximam, contemplam ou escalam seus blocos. A relação com o objeto arquitetônico é intensificada pelo espaço que o circunda. O Teatro Nacional parte de uma forma geométrica simples e compacta, que ocupa o terreno com destaque para um grande e único volume. O vazio ao redor permite que o transeunte observe a arquitetura como espetáculo e escultura. A partir dessa interpretação, é possível aproximar-se do conceito de teatralidade explorado pelo crítico de arte Michael Fried, e também refletir sobre o vazio e o espaço que envolve os objetos arquitetônicos, conforme discutido por Niemeyer, Josep Montaner e Le Corbusier.
Palavras-chave
Como citar
CERIOLI, Stéphanie. Um teatro do avesso: Athos Bulcão e o relevo do Teatro Nacional. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
- Agnaldo Farias, “A Obra de Athos Bulcão, Ponto Alto da Vertente Construtiva,” In Anais do 8º Seminário DOCOMOMO Brasil – Cidade Moderna e Contemporânea: Síntese e Paradoxo das Artes (Rio de Janeiro, 2009), 1–11, <https://publicacoes.docomomobrasil.com/anais/article/view/1240/1139> acesso em 13 set. 2025.
- Oscar Niemeyer, “Teatro Nacional de Brasília,” Módulo (Rio de Janeiro), n. 17 (1960): 4–13.
- Eduardo Oliveira Soares, Fragmentos dos atos iniciais do Teatro Nacional Cláudio Santoro (Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, 2013), 202.
- Le Corbusier, Por uma arquitetura, trad. Ubirajara Rebouças (São Paulo: Perspectiva, 2014), 13.
- Michael Fried, “Arte e Objetividade,” trad. Milton Machado, Revista Artes & Ensaios, n. 9 (2002): 131–47, 142.
- Oscar Niemeyer, Como se faz arquitetura (Petrópolis: Vozes Ltda., 1986), 8.
- Le Corbusier, “Le théâtre spontane”, in Le Corbusier et.al., Architecture et Dramaturgie, Atti del Convegno, (Paris: Flammarion Editeur, 1948): 149-186. tradução nossa.

